Viajar é preciso, viver não é preciso.
MEMÓRIAS DE VIAGENS Uma adaptação do verso de Fernando Pessoa, cantado por Caetano Veloso, acompanhando algumas viagens encantadas.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
A sociedade que despreza o imigrante
Wrong Way
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Tecnologia nas nuvens
A primeira vez que tive oportunidade de transpor distância via aérea, foi no final dos anos 80 do século XX. As aeronaves, no seu interior e na perspetiva do entretenimento do passageiro, eram frugais. Nada de écrans nem informação das temperaturas exteriores, rotas em mapa-mundo, tempo e hora à chegada. As estimativas surgiam da cabeça de cada um. Já nos anos 90, principalmente nos voos de longo curto, surgiram os ecrãs públicos, otimizados para algumas, poucas, filas de viajantes. Uma imagem rudimentar da região do globo por onde se desenvolveria a viagem, com parcas informações meteorológicas e de distâncias.
Em 2009 surgiam ecrãs minusculos da cabeceira da poltrona da frente, individuas por passageiros. Recordo-me mais ou menos nessa altura, num voo da TAAG Porto Luanda, o gigante mas elegante Boeing 777, possuía simples ecrãs pouco maiores que os dos atuais smartphones, com os quais se ocupava o tempo das longas viagens, enclausurados no tubo voador.
Agora, abril de 2026, estamos a voar em direção a Boston, a atravessar o extenso Atlântico. Um ecrã generoso, a dois palmos do nariz, disponibiliza ao paciente viajante uma série de entretenimentos inimagináveis há 20 anos atrás. Centenas de filmes, programas de TV, videos para relaxar, jogos de arcada, os últimos gritos musicais, a par de obras musicais elaboradas em tempos em que os únicos voadores eram os pássaros. Os auscultadores fornecidos pelas comissárias de bordo são higienicamente substituídos pelos auscultadores bluetooth que diligentemente trazemos de casa. Os passageiros que largaram mais uns cobres para fazer a viagem de forma mais confortável que os restantes, têm á sua disposição no ecrã o menu das refeições e a carta de vinhos. Os pelintras das filas da retaguarda, ao tentarem aceder a este item, são delicadamente informados "tente mais tarde", uma maneira de dizer "para a próxima não sejam tão agarrados". Acresce, hélas, Internet à disposição, cuja qualidade e rapidez segrega uma vez mais os passageiros: os que querem pagar mais uns paus e os forretas. Por alguns cobres podemos navegar via satélite como se estivéssemos em casa, não como com fIbra ótica, mas como se estivéssemos ligados através de um ADSL ronceiro. Mesmo assim, a TAP democratizou as mensagens de texto, abertas a todos e permitindo meter inveja aos amigos e familiares quando a mensagem do WhatsApp surge do outro lado informando que estamos a viajar a velocidade de cruzeiro, a 850 km/h e a 12 km de altitude.
Para fidelizar os clientes, a companhia aérea permite criar um perfil, onde se registam todos os últimos tons favoritos e que, em próximas viagens, podem ser facilmente acessíveis.
Imaginem como será daqui a 20 anos, quando os nossos netos usufruírem do serviço dos robotizados comissários de bordo e de televisão imersiva, difundida do planeta Júpiter.
Viagem Boston - Lisboa, 2 de abril de 2026, TAP, Airbus 321LR
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Pelas linhas das Beiras
Há cerca de 50 anos, a viagem entre Almada e a Guarda era uma autêntica aventura. Sair muito cedo para chegar tarde. Mas ficou esse sabor do acordar nas manhãs frias e sonolentas, apimentadas pelas ânsia da viagem, que contrastava com a calorosa receção dos familiares da aldeia granítica serrana e da reconfortante sopa quente de feijão e couve acabada de tirar da panela de ferro depositada na lareira acesa.
Decidimos fazer no mesmo dia esse mesmo percurso, agora de comboio, entre o Entroncamento e a Guarda. Ida pela linha da Beira Baixa, troço cheio de recordações das viagens no sud expresso para uma Europa desconhecida, longínqua e menos aberta, e regresso pela linha da Beira Baixa, encerrada parcialmente durante vários anos para reabilitação.
Característica do segundo quarto do século XXI, o bilhete e a reserva para o comboio IC foi efetuada remotamente, com possibilidade de escolha do lugar e da carruagem. Tudo online, incluindo o pagamento. Escolhi o melhor lugar, á janela, voltado no sentido da deslocação e do lado em que esperava ter uma melhor vista. Naquele que me sentei julgando ser o correto, o lugar tão criteriosamente escolhido saiu logrado: carruagem invertida, fazendo com que o assento se localizasse no lado oposto ao cenário desejado, orientado no sentido oposto à deslocação do comboio e, como cereja podre em cima do bolo, um janela panorâmica que, de tão suja, concorria com a neblina matinal. Hélas!!
Partida com 1 mn de atraso. O comboio estranhamente cheio para um sábado de manhã, fora de épocas festivas ou de fins de semana prolongados. Explica-se certamente pela oportunidade dada pelo passe verde ferroviário. Nesta viagem, cada bilhete individual, ficaria por cerca de 45 euros. Com o passe , resumiu-se a 20 euros, com a possibilidade de, durante um mês, poder viajar á borla pela rede ferroviária. Bem jogado! 🙂
Na manhã fria, a neblina ou nevoeiro acompanham permanentemente o comboio. A composição mantém-se quase cheia. Os passageiros que saíram em Coimbra B - estação que recente e infelizmente perdeu a sua irmã mais nova e central da cidade tricana - foram compensados pelos que lá entraram.
Pampilhosa que não é da serra. O comboio afasta-se da linha do Norte e entra na linha da Beira Alta. Desaparecem as paisagens planas, agricultadas, com casario disperso e iniciam-se horizontes ondulados, inicialmente mais florestados e, depois de contornar a serra do Buçaco, mais desertos e pedregosos, por onde o comboio serpenteia, ronceiro e hesitante, mesmo após as obras de modernização que prometiam mais fluidez.
"Senhores passageiros. Próxima estação, Nelas. Nelas. No desembarque, atenção á distância entre o comboio e a plataforma. Next station, Mangualde." Vislumbra-se a Serra da Estrela no horizonte. A nebula e o vidro quase opaco não permitem identificar neve que, devido às baixas temperaturas, deve ser significativa nas zonas mais altas. Aproxima-se Mangualde. Junto á via, numa zona plana, um monumento assinala o maior acidente ferroviário ocorrido em Portugal. Alcafache. Simples e recôndita aldeia, ligada à linha ferroviária, ficou conotada negativamente com aquele sinistro acidente provocado pela má comunicação entre os chefes das estações opostas, onde dois comboios, deslocando-se em sentidos opostos, embatem violentamente, causando uma amálgama de destroços e vários incêndios devido ao combustível das locomotivas e do aquecimento, ampliado pelos materiais altamente combustíveis que integravam as composições. Mais de 140 mortos, número indefinido devido á violência do incêndio.
Estas memórias tétricas são interrompidas pelo ruído de um extenso grupo folclórico que irrompeu de uma das extremidades da carruagem e que percorreu todo o comboio cantando as janeiras em alto e bom som, para gáudio dos passageiros. Lá fora, o Mondego acompanha o comboio e a paisagem, despida de floresta adulta, com blocos de granito dispersos, giesta e zonas ardidas. O sol, tímido, começou a rasgar o nevoeiro.
A estação de Vila Franca das Naves é uma espécie de elevador da linha da Beira Alta. Para atingir os cerca de 800 metros de altitude da estação da Guarda, de forma suave e que permita ser comquistado por um comboio, a linha sobe linearmente de Celorico da Beira (400 m de altitude) até Vila Franca das Naves (550 m), curvando depois num ângulo de 180° até avançar para estação terminal. A sul de Vila Franca das Naves, o comboio passa a 500 metros da linha onde tinha acabado de circular numa direção oposta.
Chegada á estação da Guarda com meia hora de atraso. Frio. Temperatura idêntica ao do local da partida, quase 4 horas antes.
No início da tarde parte novo IC, agora de regresso ao Entroncamento pela linha da Beira Baixa. Sai vazio, no sentido descendente, ao longo do mesmo vale por onde se estende a A23, embora na íngreme encosta oposta. Sabugal (curiosamente com a estação muitos poucos quilómetros depois da da Guarda), Benespera, Belmonte, Covilhã, onde entra mais gente, jovens, provavelmente estudantes universitários. O comboio fica mais compostinho. Fundão, com a serra da Gardunha ao fundo. Os engenheiros ferroviários do século XIX, sem os meios e recursos atuais, para evitar construir um túnel de enorme dimensão, decidem contornar parte da serra para a ultrapassar. Alpedrinha, Alcains e chegada à cosmopolita e interior Castelo Branco. E lá vai o comboio em direção a sul, tal comboio descendente de Fernando pessoa cantado pelos Trovante.
Quando o ar condicionado da carruagem se desliga momentaneamente, resta um abafado e longínquo ranger da carroçaria e rodadados que, associado ao balancear do comboio, faciliita a introspecção e o relaxamento. O comboio segue agora ao longo do rio Tejo, a meia encosta, em vale cavado cheio de água represada e que espelha os lânguidos raios solares do final da tarde. Uma das margens, oposta à linha, com vegetação densa e intransponíveis, abre-se aos caminhantes e amantes sonhadores da natureza. É a pequena rota da sirga.
Chegada a terras ribatejanos no final do dia. A viagem de comboio e não o destino atingido, foi em si uma agradável atividade de lazer e de recordação de bons e longínquos momentos vividos naquelas linhas.
Informações úteis:
Bilhete - passe verde ferroviário, para residentes em Portugal, com validade de 30, 60 ou 90 dias e que permite viajar por todo o país em comboios regionais ,interregionais e intercidades, em segunda classe. Um verdadeiro interrail dentro de portas.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Alsácia: a região partilhada
A identidade franco-alemã da Alsácia deve-se certamente á constante troca de território entre Estados, resultados de quezílias ao longo da história. Até ao século XV a Alsácia integra o império romano germânico, o percursor da atual Alemanha. Após a guerra dos 30 anos, parte da Alsácia integra a França, durante cerca de 200 anos. No final do século XIX, o império alemão anexa novamente a Alsácia. Após a I guerra mundial regressa a território francês. Durante a II guerra mundial volta a ser conquistada pela Alemanha nazi e, depois desta ter capitulado, passa novamente para França até aos nossos dias. O território baila de uma margem para a outra do Reno. Estabilizou agora com a implantação do parlamento europeu em Estrasburgo.
Esta miscelânea de culturas partilhadas por estes países, faz com que a Alsácia possua leis locais diferentes do resto de França, tenha feriados próprios, um regime de saúde especial e uma forte identidade regionalista. Apesar de ter o francês como língua oficial, possui um dialeto próprio, muito próximo do suíço germânico e da Alemanha do sul.
Iniciamos a viagem a uma sexta feira com previsão de a terminar na terça seguinte. Aterrámos em Basileia, voámos com a EasyJet e estabelecemo-nos num gite em Beblenheim, aldeia central que permitiu, a partir dela e nesses 5 dias, visitar alguns locais da Alsácia e Suíça. A habitação, fechada à volta de um pátio onde os alojamentos dos residentes e hóspedes concentravam-se no primeiro andar. No rés-do-chão dispersavam-se as garagens, armazéns e arrecadações. Antigos celeiros e estábulos para animais, certamente. O anfitrião e a sua esposa fizeram tudo para nos proporcionarem uma boa estadia. Antigo produtor de vinho numa das regiões vitivinícolas mais importantes de França e mesmo da Europa, o proprietário do alojamento presenteou-nos um uma garrafa do delicioso vinho da adega local. No primeiro dia, após nos instalarmos, visitámos os famosos mercados de Natal de Colmar. Quem visita este tipo de atração deve fazê-lo preferencialmente á noite: o ambiente torna-se feérico e mágico. A gente era tanta que os visitante facilmente se deslocavam sem colocar os pés nos chão. 😁 Com alguma dificuldade conseguimos um estacionamento mais ou menos central. No entanto, nestas alturas, as autoridades locais colocam a disposição a extensa área de estacionamento do parque de exposição local, conjugando com uma ponte rodoviária de autocarros que deslocam os maravilhados visitantes aos mercadinhos centrais.
No segundo dia dedicámo-nos às aldeias natalícias da vizinhança, Ribauville, Kaisersberg e novamente o ex-líbris local, Colmar. A aldeia de Riquewihr, de tão requisitada, tornou-se inacessível. As filas eram tão grandes que saltámos para o destino seguinte. Salsichas com chucrute envinagrada, uma deliciosa e reconfortante mistela com batatas cozidas, cebolas, bacon e natas, e o vinho quente com aromáticas, foram iguarias testadas e saboreadas. Queijos de todas as cores (também vermelhos e verdes), formas e tamanhos foram adquiridos e serão certamente um sucesso na mesa da consoada.
Terceiro dia. Visita ao longo da margem direita alemã do rio Reno que nasce na Suíça, divide a França da Alemanha, banha importantes cidades alemãs e desagua no frenético porto holandês de Roterdão. Uma verdadeira autoestrada Europa dentro, vocacionada para turistas bem instalados em embarcações confortáveis e envidraçadas mas também para transporte de mercadorias. Freiburg, Gengenbach e, no final do dia, Baden-Baden, foram as localidades que formaram o percurso escolhido. Cidades muito bem organizadas, onde o sistema de parqueamento de viaturas na periferia da cidades, conjugado com bilhetes de transportes públicos, faz inveja à desorganização da circulação lisboeta.
Estrasburgo. Capital da Alsácia, do livro e da leitura e sede de uma das três mais importantes instituições da União Europeia: o Parlamento Europeu. Todos os anos, na época de Natal, recebe milhões de visitantes que se concentram no seu interior, na parte central, bem limitada por linhas de água, atravessadas por pontes com checkpoints para evitar atentados. A catedral e majestosa e a fachada principal hipnotiza, com as suas pérgolas, colunas, varandas, estatuetas e perfis góticos.
Testada pela primeira vez, a tarte flambé, com nome próprio também em alemão (flammkuchen), foi um sucesso. O restaurante Au Brasseur, central mas longe da confusa e apinhada zona dos mercados, permitiu a degustação de 4 variedades daquela especialidade culinária alsaciana, bem regada com cerveja artesanal fabricada no local, 100% puro malte e lúpulo, não filtrada e não pasteurizada e tirada diretamente da cuba para a caneca, respeitando a tradição da fermentação típica. A necessidade de conduzir viatura não permitiu ultrapassar a caneca de meio litro. 😊
Último dia. Despedida do acolhedor lar e de uma das suas habitantes, francesa rosada, simpática, que até conhecia a zona de Chaves devido a visitas constantes a amigos portugueses. Os lusos emigrantes deixaram de ser os dependentes pobres da economia francesa e, agora bem estabelecidos social e economicamente, passaram a bem acolher na sua terra de origem quem os ajudou a superar as más condições de vida impostas pela ditadura bafienta.
Depois de entregar a viatura no aeroporto internacional partilhado por França e Suíça, a carreira 50, cujo acesso ocorreu com uma simples app android carregada com as necessárias passagens, levou-nos ao centro da cidade de Basileia. Dividida pelo nosso amigo Reno, possui um sistema de transporte fenomenal que permite a um turista apressada visitar de forma célere os pontos de interesse.
Alojamento:
-Gite du vignoble, na tranquila aldeia de Bebleinheim, perto de Colmar e de um nó de autoestrada A35 (Autoroute des Cigognes)
Rent a car:
Enterprise, balcão do lado Suíço do aeroporto europeu de Basel/Fribourg/Malhouse, partilhado por três países. Pessoal prestável e simpático. Alguma demora no check-in. Valor exorbitante pedido pela empresa para custear um ligeiro raspão do suporte do espelho lateral da viatura, pouco maior que uma moeda de euro, sabendo nós que não foi da nossa responsabilidade.
Estrasburgo.
- Estacionamento P+R (park and ride) que, por uma módica quantia de 4,2 euros, permite o estacionamento de uma viatura por 24 horas e inclui o transporte para a cidade de até 5 pessoas, desde que viagem em conjunto. E viagens "à volonté" por toda a cidade durante aquela período.
- Restaurante Au Brasseur, na rue des veaux, 22, com menu diário, de valor pré-definido, e preços longe dos exorbitantes se praticam na zona.
Basileia
- Transportes públicos. Utilizar a APP da SBB mobile para adquirir bilhetes diários digitais. Permite deslocação de e para o aeroporto.
- Apanhar sol durante a tarde nas escadarias na margem do Reno oposta à catedral.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
A ilha de Santa Maria, Açores, e a atividade aeronáutica
A ilha de Santa Maria está fortemente ligada ao setor aero espacial. Por boas e más razões.
Estrategicamente posicionada no meio do atlântico, foi um espaço muito cobiçado por potências estrangeiras, designadamente França e Estados Unidos da América. As características planas da zona oeste da ilha espantaram e agradaram os interessados. Durante a segunda guerra mundial conseguiu, este último Estado, a concessão do terreno para construção de uma pista, e com ela vieram outras infraestruturas de apoio logístico e também os necessários recursos humanos
Com a abertura de novas oportunidades, estes serviços foram talvez um dos responsáveis pela melhoria da qualidade de vida da população e o afastamento da rude e dura vida rural para outra que melhor sustentava as carentes famílias muito ligadas à agricultura de subsistência.
Com o tempo e o incremento das viagens aéreas intercontinentais, a falta de autonomia das aeronaves fez com que este porta-aviões no meio do oceano atlântico tivesse uma inusitada procura. Ainda durante esta estadia tive a possibilidade doe observar e acompanhar um Boeing 757, com bandeira da IcelandAir e fretado pela Nathional Geographic, fazendo escala técnica para abastecimento de um voo proveniente de Marraquexe para Washinton DC.
A pista de grande dimensão, com cerca de 3000 metros ( acolheu a partir dos anos 70 o famoso Concorde, a caminho da América do Sul, em escalas técnicas para reabastecimento.
Mais recentemente a ilha recebeu a sede da Agência Espacial Portuguesa, que é uma organização criada pelo governo português para implementar a Estratégia Nacional para o Espaço, Portugal Espaço 2030. A implementação de uma estação de monitorização da Agência Espacial Europeia (ESA) na Ilha de Santa Maria, estabeleceu um marco importante na definição do papel de Portugal no contexto do Atlântico. O país está ainda a avaliar o desenvolvimento nos Açores de um porto espacial para pequenos lançadores .
A ilha tem também registos trágicos. Contrariamente ao que se julga, o maior acidente aéreo ocorrido em Portugal não foi o do avião da TAP, na Madeira, nos anos 70 do século XX. Um mais catastrófico, em que todos os passageiros e tripulação foram vítimas fatais, ocorreu em 1989. Um avião proveniente de Bérgamo, Itália, com 144 pessoas a bordo, operado por uma companhia charter americana, deveria fazer escala nesta ilha açoriana antes de continuar o seu percurso até às américas. Uma má interpretação das indicações fornecidas pelo controlador aéreo, associado a má visibilidade, fez com que o piloto perdesse altitude mais cedo do que devia, dos 3000 pés para os 1000 pés (cerca de 330 metros), fazendo com que a aeronave se pulverizasse contra a encosta nascente da serra central da ilha, junto ao Pico Alto, o ponto de maior altitude da ilha de Santa Maria (cerca de 600 metros). Um lúgubre e monolítico monumento, onde constam o nome de todas as vítimas, foi erigido no local. Agora, 36 anos depois, ainda se encontram fotografias deixadas por familiares.
As simples e pequenas instalações do aeroporto da ilha de Santa Maria, que de grande só tem a pista, ainda conservam uma torre de controlo de madeira, provavelmente a original, para além de uma mais atual, moderna e imponente, naturalmente. Esta infraestrutura modesta é indicador claro de que a ilha, o governo regional e o Estado português nunca teve intenção de dar importância àquele aeroporto. Talvez por isso mesmo tem gradualmente perdido a sua importância estratégica. A ilha, tendo em conta a sua história aeronáutica, nunca se pôs em bico dos pés. É prova disso o uso quase caseiro daquele aeroporto: um senhor com alguma idade esperava um amigo num dos bancos do exterior da gare. Cada pessoa que passava era alvo de cumprimento e da sempre mesma inquirição: para onde viajas? Recebia a resposta com um sorriso simples e, talvez, com a esperança de estar um dia no lugar deles.
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Ilha de Santa Maria
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Estacionámos a viatura perto da igreja matriz. Chuvia bem. Chuva molha tolos. A tentativa de um passeio pela zona saiu gorada. Os autóctones...
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A semana de 18 de outubro de 2025 estava reservada para umas curtas férias. O local escolhido estava dependente de fatores familiares. Depoi...
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A ilha de Santa Maria está fortemente ligada ao setor aero espacial. Por boas e más razões. Estrategicamente posicionada no meio do atlânti...







