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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Pelas linhas das Beiras


Há cerca de 50 anos, a viagem entre Almada e a Guarda era uma autêntica aventura. Sair muito cedo para chegar tarde. Mas ficou esse sabor do acordar nas manhãs frias e sonolentas, apimentadas pelas ânsia da viagem, que contrastava com a calorosa receção dos familiares da aldeia granítica serrana e da reconfortante sopa quente de feijão e couve acabada de tirar da panela de ferro depositada na lareira acesa.


Decidimos fazer no mesmo dia esse mesmo percurso, agora de comboio, entre o Entroncamento e a Guarda. Ida pela linha da Beira Baixa, troço cheio de recordações das viagens no sud expresso para uma Europa desconhecida, longínqua e menos aberta, e regresso pela linha da Beira Baixa, encerrada parcialmente durante vários anos para reabilitação.


Característica do segundo quarto do século XXI, o bilhete e a reserva para o comboio IC foi efetuada remotamente, com possibilidade de escolha do lugar e da carruagem. Tudo online, incluindo o pagamento. Escolhi o melhor lugar, á janela, voltado no sentido da deslocação e do lado em que esperava ter uma melhor vista. Naquele que me sentei julgando ser o correto,  o lugar tão criteriosamente escolhido saiu logrado: carruagem invertida, fazendo com que o  assento se localizasse no lado oposto ao cenário desejado, orientado no sentido oposto à deslocação do comboio e, como cereja podre em cima do bolo, um janela panorâmica que, de tão suja, concorria com a neblina matinal. Hélas!!


Partida com 1 mn de atraso. O  comboio estranhamente cheio para um sábado de manhã, fora de épocas festivas ou de fins de semana prolongados. Explica-se certamente pela oportunidade dada pelo passe verde ferroviário. Nesta viagem, cada bilhete individual, ficaria por cerca de 45 euros. Com o passe , resumiu-se a 20 euros, com a possibilidade de, durante um mês, poder viajar á borla pela rede ferroviária. Bem jogado! 🙂


Na manhã fria, a neblina ou nevoeiro acompanham permanentemente o comboio. A composição mantém-se quase cheia. Os passageiros que saíram em Coimbra B - estação que recente e infelizmente perdeu a sua irmã mais nova e central da  cidade tricana - foram compensados pelos que lá entraram. 


Pampilhosa que não é da serra. O comboio afasta-se da linha do Norte e entra na linha da Beira Alta.  Desaparecem as paisagens planas, agricultadas, com casario disperso e iniciam-se horizontes ondulados, inicialmente mais florestados e, depois de  contornar a serra do Buçaco,  mais desertos e pedregosos, por onde o comboio serpenteia, ronceiro e hesitante, mesmo após as obras de modernização que prometiam mais fluidez. 


"Senhores passageiros. Próxima estação, Nelas. Nelas. No desembarque, atenção á distância entre o comboio e a plataforma. Next  station, Mangualde."  Vislumbra-se a Serra da Estrela no horizonte. A nebula e o vidro quase opaco não permitem identificar neve que, devido às baixas temperaturas, deve ser significativa nas zonas mais altas. Aproxima-se Mangualde. Junto á via, numa zona plana, um monumento assinala o maior acidente ferroviário ocorrido em Portugal. Alcafache. Simples e recôndita aldeia, ligada à linha ferroviária, ficou conotada negativamente com aquele sinistro acidente provocado pela má comunicação entre os chefes das estações opostas, onde dois comboios, deslocando-se em sentidos opostos, embatem violentamente, causando uma amálgama de destroços e vários incêndios devido ao combustível das locomotivas e do aquecimento, ampliado pelos materiais altamente combustíveis que integravam as composições. Mais de 140 mortos, número indefinido devido á violência do incêndio. 


Estas memórias tétricas são interrompidas pelo ruído de um extenso grupo folclórico que irrompeu de uma das extremidades da carruagem e que percorreu todo o comboio cantando as janeiras em alto e bom som, para gáudio dos passageiros. Lá fora, o Mondego acompanha o comboio e a paisagem, despida de floresta adulta, com blocos de granito dispersos,  giesta e zonas ardidas. O sol, tímido, começou a rasgar o nevoeiro.


A estação de Vila Franca das Naves é uma espécie de elevador da linha da Beira Alta. Para atingir os cerca de 800 metros de altitude da estação da Guarda, de forma suave e que permita ser comquistado por um comboio, a linha sobe linearmente de Celorico da Beira (400 m de altitude) até Vila Franca das Naves (550 m), curvando depois num ângulo de 180° até avançar para  estação terminal. A sul de Vila Franca das Naves, o comboio passa a 500 metros da linha onde tinha acabado de circular numa direção oposta.


Chegada á estação da Guarda com meia hora de atraso. Frio. Temperatura idêntica ao do local da partida, quase 4 horas antes.


No início da tarde parte novo IC, agora de regresso ao Entroncamento pela linha da Beira Baixa. Sai vazio, no sentido descendente, ao longo do mesmo vale por onde se estende a A23, embora na íngreme encosta oposta. Sabugal (curiosamente com a estação muitos  poucos quilómetros depois da da Guarda), Benespera, Belmonte, Covilhã, onde entra mais gente, jovens, provavelmente estudantes universitários. O comboio fica mais compostinho. Fundão, com a serra da Gardunha ao fundo. Os engenheiros ferroviários do século XIX, sem os meios e recursos atuais, para evitar construir um túnel de enorme dimensão, decidem contornar parte da serra para a ultrapassar. Alpedrinha, Alcains e chegada à cosmopolita e interior Castelo Branco. E lá vai o comboio em direção a sul, tal comboio descendente de Fernando pessoa cantado pelos Trovante.


Quando o ar condicionado da carruagem se desliga momentaneamente, resta um abafado e longínquo ranger da carroçaria e rodadados que, associado ao balancear do comboio, faciliita a introspecção e o relaxamento. O comboio segue agora ao longo do rio Tejo, a meia encosta, em vale cavado cheio de água represada e que espelha os lânguidos raios solares do final da tarde. Uma das margens, oposta à linha, com vegetação densa e intransponíveis, abre-se aos caminhantes e amantes sonhadores da natureza. É a pequena rota da sirga.


Chegada a terras ribatejanos no final do dia.  A viagem de comboio e não o destino atingido, foi em si uma  agradável atividade de lazer e de recordação de bons e longínquos  momentos vividos naquelas linhas.



Informações úteis:


Bilhete - passe verde ferroviário, para residentes em Portugal, com validade  de 30, 60 ou 90 dias e que permite viajar por todo o país em comboios regionais ,interregionais e intercidades, em segunda classe.  Um verdadeiro interrail dentro de portas.

sábado, 21 de junho de 2025

A Rosete veio de Táxi

Foi preciso chegar a esta idade para conhecer ao vivo a ROSETE, que passeava SOZINHO pelas ruas do CAIRO, a mascar CHICLETE com PRAZER, passando por bairros plenos de egípcios com VIDA DE CÃO  e a viver no FIO DA NAVALHA. A LEI DA SELVA.
É-ME IGUAL. Afinal era só o MEU MANEQUIM, o ÁS DOS FLIPPERS que procurava um TÁXI.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Passe verde ferroviário. O primeiro teste.

Dezembro, dia frio. Após almoço decidiu-se rever a estonteante e maravilhosa linha da beira baixa, entre as estações de Entroncamento e Vila Velha de Ródão. 

Reserva de lugar para o InterCidades (IC) Lisboa - Guarda que, devido a greve, suprimiu as composições entre Lisboa e Entroncamento e fez partir dessa cidade um comboio á antiga, tipo urbano. Indicações de locais de partida contrárias: a app da CP indicava uma linha e os painéis eletrónicos da estação outra. A CP no seu melhor.

Sem ninguém no comboio, carruagens vazias, foi preciso confirmar com um revisor conhecido que aquele era efetivamente o comboio desejado.

Viagem até Abrantes com belas vistas para o Tejo, mas zona já batida. Pouco depois de Alferrarede, após novo atravessamento do rio, agora para a margem norte, começa a passar pela janela um cenário deslumbrante: o vale do Tejo, mais a montante, entre Abrantes e Vila Velha de Ródão, junto á fronteira espanhola. O comboio segue sempre a meia encosta, por vezes rasando a água, na margem direita do Tejo e permite observar zonas completamente desertas de população humana na margem sul. Entre Belver e alguns quilómetros a montante, observa-se a contornar o leito o serpentear de um passadiço, a rota da sirga. 

Chegada a Vila Velha de Ródão, a vila-aldeia. Aconchegada ao rio Tejo, acolhe as Portão de Ródão, área classificada no âmbito da conservação da natureza. Como refere o sítio internet do município, trata-se de uma imponente garganta escavada pelo rio Tejo na crista quartzítica da serra do Perdigão, que criou um estrangulamento no curso da água com 45 metros de largura. O local serve de habitat para a maior colónia de grifos do país e é um lugar privilegiado para a investigação de fauna e avifauna.
Regresso no final do dia, com o ângulo dos raios solares a pjtarem de outras cores as arribas do Tejo. Comboio com baixa ocupação, um pouco mais que na ida, chegou num ápice ao Entroncamento.

Término da primeira viagem com uso do passe verde. Que venham outras.