quinta-feira, 16 de abril de 2026

A sociedade que despreza o imigrante

À entrada de Chinatown — aquele enclave vibrante onde Nova Iorque se transmuta em Ásia — deparámo-nos com uma multidão de vendedores ambulantes. Na sua maioria negros, possivelmente imigrantes em busca de sonhos intangíveis, estendiam lençóis brancos pelo chão, improvisando montras para mercadorias contrafeitas, sobretudo malas e carteiras. Com uma insistência quase desesperada, tentavam seduzir os turistas com promessas de um status efémero, passaporte de entrada na sociedade capitalista e selvagem que o governo de Trump personifica.


​Subitamente, como suricatas em alerta, os vendedores ergueram as cabeças. Num movimento coreografado pelo medo, iniciaram a debandada, arrastando os fardos de mercadoria  improvisados enquanto a polícia se aproximava. Na aflição da fuga, algumas malas caíram pelo caminho. Foi então que um casal de jovens, bem vestidos e de aparência abastada, recolheu uma das peças do chão e, sem qualquer pudor, tomou-a como sua, escondendo-a dentro do casaco.

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​O gesto serviu de metáfora perfeita: a personificação de uma sociedade que despreza o imigrante, mas que, de forma agressiva e oportunista, não hesita em usufruir do fruto do seu trabalho e sacrifício.

revisto pelo Gemini

Wrong Way

Nos EUA a sinalização rodoviária é s universal. Com algumas pequenas diferenças. Nalguns casos, as entidades responsáveis pela colocação dos sinais de trânsito preferem colocar um painel mencionando NÃO PASSAR do que simplismente implantar um sinal de sentido proibido. O sinal de sentido único é também frequentemente substituído pelo texto WRONG WAY. Nas zonas com maior população e sem semáforos, existem cruzamentos em que todas as estradas têm um sinal de stop. Perguntámos a um autóctone do porquê desse facto caricato, se as regras de prioridade também se aplicam no país. Parece que desta forma se identifica claramente o condutor que deve avançar primeiro, que é aquele que também parou primeiro no cruzamento. 🤠


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tecnologia nas nuvens


A primeira vez que tive oportunidade de transpor distância via aérea, foi no final dos anos 80 do século XX. As aeronaves, no seu interior e na perspetiva do entretenimento do passageiro, eram frugais. Nada de écrans nem informação das temperaturas exteriores, rotas em mapa-mundo, tempo e hora à chegada. As estimativas surgiam da cabeça de cada um. Já nos anos 90, principalmente nos voos de longo curto, surgiram os ecrãs públicos, otimizados para algumas, poucas, filas de viajantes. Uma imagem rudimentar da região do globo por onde se desenvolveria a viagem, com parcas informações meteorológicas e de distâncias.



Em 2009 surgiam ecrãs minusculos da cabeceira da poltrona da frente, individuas por passageiros. Recordo-me mais ou menos nessa altura, num voo da TAAG Porto Luanda,  o gigante mas elegante Boeing 777, possuía simples ecrãs pouco maiores que os dos atuais smartphones, com os quais se ocupava o tempo das longas viagens, enclausurados  no tubo voador.


Agora, abril de 2026, estamos a voar em direção a Boston, a atravessar o extenso Atlântico. Um ecrã generoso, a dois palmos do nariz, disponibiliza ao paciente viajante uma série de entretenimentos inimagináveis há 20 anos atrás. Centenas de  filmes, programas de TV, videos para relaxar, jogos de arcada, os últimos  gritos musicais, a par de obras musicais elaboradas em tempos em que os únicos voadores eram os pássaros. Os auscultadores fornecidos pelas comissárias de bordo são higienicamente substituídos pelos auscultadores bluetooth que diligentemente trazemos de casa. Os passageiros que largaram mais uns cobres para fazer a viagem de forma mais confortável que os restantes, têm á sua disposição no ecrã o menu das refeições e a carta de vinhos. Os pelintras das filas da retaguarda, ao tentarem aceder a este item, são delicadamente informados "tente mais tarde", uma maneira de dizer "para a próxima não sejam tão agarrados".  Acresce, hélas, Internet à disposição, cuja qualidade e rapidez segrega uma vez mais os passageiros: os que querem pagar mais uns paus e os forretas. Por alguns cobres podemos navegar via satélite como se estivéssemos em casa, não como com fIbra ótica, mas como se estivéssemos ligados através  de um ADSL ronceiro. Mesmo assim, a TAP democratizou as mensagens de texto, abertas a todos e permitindo meter inveja aos amigos e familiares quando a mensagem do WhatsApp surge do outro lado informando que estamos a viajar a velocidade de cruzeiro, a 850 km/h e a 12 km de altitude. 


Para fidelizar os clientes, a companhia aérea permite criar um perfil, onde se registam todos os últimos tons favoritos e que, em próximas viagens, podem ser facilmente acessíveis.


Imaginem como será  daqui a 20 anos, quando os nossos netos usufruírem  do serviço dos robotizados comissários de bordo e de  televisão imersiva, difundida do planeta Júpiter.



Viagem Boston - Lisboa, 2 de abril de 2026, TAP, Airbus 321LR

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Pelas linhas das Beiras


Há cerca de 50 anos, a viagem entre Almada e a Guarda era uma autêntica aventura. Sair muito cedo para chegar tarde. Mas ficou esse sabor do acordar nas manhãs frias e sonolentas, apimentadas pelas ânsia da viagem, que contrastava com a calorosa receção dos familiares da aldeia granítica serrana e da reconfortante sopa quente de feijão e couve acabada de tirar da panela de ferro depositada na lareira acesa.


Decidimos fazer no mesmo dia esse mesmo percurso, agora de comboio, entre o Entroncamento e a Guarda. Ida pela linha da Beira Baixa, troço cheio de recordações das viagens no sud expresso para uma Europa desconhecida, longínqua e menos aberta, e regresso pela linha da Beira Baixa, encerrada parcialmente durante vários anos para reabilitação.


Característica do segundo quarto do século XXI, o bilhete e a reserva para o comboio IC foi efetuada remotamente, com possibilidade de escolha do lugar e da carruagem. Tudo online, incluindo o pagamento. Escolhi o melhor lugar, á janela, voltado no sentido da deslocação e do lado em que esperava ter uma melhor vista. Naquele que me sentei julgando ser o correto,  o lugar tão criteriosamente escolhido saiu logrado: carruagem invertida, fazendo com que o  assento se localizasse no lado oposto ao cenário desejado, orientado no sentido oposto à deslocação do comboio e, como cereja podre em cima do bolo, um janela panorâmica que, de tão suja, concorria com a neblina matinal. Hélas!!


Partida com 1 mn de atraso. O  comboio estranhamente cheio para um sábado de manhã, fora de épocas festivas ou de fins de semana prolongados. Explica-se certamente pela oportunidade dada pelo passe verde ferroviário. Nesta viagem, cada bilhete individual, ficaria por cerca de 45 euros. Com o passe , resumiu-se a 20 euros, com a possibilidade de, durante um mês, poder viajar á borla pela rede ferroviária. Bem jogado! 🙂


Na manhã fria, a neblina ou nevoeiro acompanham permanentemente o comboio. A composição mantém-se quase cheia. Os passageiros que saíram em Coimbra B - estação que recente e infelizmente perdeu a sua irmã mais nova e central da  cidade tricana - foram compensados pelos que lá entraram. 


Pampilhosa que não é da serra. O comboio afasta-se da linha do Norte e entra na linha da Beira Alta.  Desaparecem as paisagens planas, agricultadas, com casario disperso e iniciam-se horizontes ondulados, inicialmente mais florestados e, depois de  contornar a serra do Buçaco,  mais desertos e pedregosos, por onde o comboio serpenteia, ronceiro e hesitante, mesmo após as obras de modernização que prometiam mais fluidez. 


"Senhores passageiros. Próxima estação, Nelas. Nelas. No desembarque, atenção á distância entre o comboio e a plataforma. Next  station, Mangualde."  Vislumbra-se a Serra da Estrela no horizonte. A nebula e o vidro quase opaco não permitem identificar neve que, devido às baixas temperaturas, deve ser significativa nas zonas mais altas. Aproxima-se Mangualde. Junto á via, numa zona plana, um monumento assinala o maior acidente ferroviário ocorrido em Portugal. Alcafache. Simples e recôndita aldeia, ligada à linha ferroviária, ficou conotada negativamente com aquele sinistro acidente provocado pela má comunicação entre os chefes das estações opostas, onde dois comboios, deslocando-se em sentidos opostos, embatem violentamente, causando uma amálgama de destroços e vários incêndios devido ao combustível das locomotivas e do aquecimento, ampliado pelos materiais altamente combustíveis que integravam as composições. Mais de 140 mortos, número indefinido devido á violência do incêndio. 


Estas memórias tétricas são interrompidas pelo ruído de um extenso grupo folclórico que irrompeu de uma das extremidades da carruagem e que percorreu todo o comboio cantando as janeiras em alto e bom som, para gáudio dos passageiros. Lá fora, o Mondego acompanha o comboio e a paisagem, despida de floresta adulta, com blocos de granito dispersos,  giesta e zonas ardidas. O sol, tímido, começou a rasgar o nevoeiro.


A estação de Vila Franca das Naves é uma espécie de elevador da linha da Beira Alta. Para atingir os cerca de 800 metros de altitude da estação da Guarda, de forma suave e que permita ser comquistado por um comboio, a linha sobe linearmente de Celorico da Beira (400 m de altitude) até Vila Franca das Naves (550 m), curvando depois num ângulo de 180° até avançar para  estação terminal. A sul de Vila Franca das Naves, o comboio passa a 500 metros da linha onde tinha acabado de circular numa direção oposta.


Chegada á estação da Guarda com meia hora de atraso. Frio. Temperatura idêntica ao do local da partida, quase 4 horas antes.


No início da tarde parte novo IC, agora de regresso ao Entroncamento pela linha da Beira Baixa. Sai vazio, no sentido descendente, ao longo do mesmo vale por onde se estende a A23, embora na íngreme encosta oposta. Sabugal (curiosamente com a estação muitos  poucos quilómetros depois da da Guarda), Benespera, Belmonte, Covilhã, onde entra mais gente, jovens, provavelmente estudantes universitários. O comboio fica mais compostinho. Fundão, com a serra da Gardunha ao fundo. Os engenheiros ferroviários do século XIX, sem os meios e recursos atuais, para evitar construir um túnel de enorme dimensão, decidem contornar parte da serra para a ultrapassar. Alpedrinha, Alcains e chegada à cosmopolita e interior Castelo Branco. E lá vai o comboio em direção a sul, tal comboio descendente de Fernando pessoa cantado pelos Trovante.


Quando o ar condicionado da carruagem se desliga momentaneamente, resta um abafado e longínquo ranger da carroçaria e rodadados que, associado ao balancear do comboio, faciliita a introspecção e o relaxamento. O comboio segue agora ao longo do rio Tejo, a meia encosta, em vale cavado cheio de água represada e que espelha os lânguidos raios solares do final da tarde. Uma das margens, oposta à linha, com vegetação densa e intransponíveis, abre-se aos caminhantes e amantes sonhadores da natureza. É a pequena rota da sirga.


Chegada a terras ribatejanos no final do dia.  A viagem de comboio e não o destino atingido, foi em si uma  agradável atividade de lazer e de recordação de bons e longínquos  momentos vividos naquelas linhas.



Informações úteis:


Bilhete - passe verde ferroviário, para residentes em Portugal, com validade  de 30, 60 ou 90 dias e que permite viajar por todo o país em comboios regionais ,interregionais e intercidades, em segunda classe.  Um verdadeiro interrail dentro de portas.