sábado, 13 de junho de 2026

Espanha aqui tão perto... de comboio

Mais uma viagem com o passe verde ferroviário. Entroncamento até Badajoz e volta.


Na velha estação, a automotora a diesel Allan espera os parcos passageiros com o orgulho dos seus 70 anos. Por ter sofrido uma operação de botox há 25 anos, com ar condicionado e poltronas mais cómodas, lá cumpre dignamente a sua missão ao longo das cerca de 3 horas de viagem e 180 km até à cidade da extremadura espanhola, ronceira e tremeliques. A linha também não ajuda.


Afinal, o comboio sai compostinho: a chegada de um intercidades do norte alimentou a Allan com passageiros suficientes para encher metade da sua capacidade.


Saída a horas, após acionada a buzina estridente. 9h06. O ar condicionado começou a funcionar. Cabeça fresca que fez despertar para os passageiros vizinhos. Em viagens de comboio é interessante, como um jogo, adivinhar os destinos dos outros passageiros. Alguns jovens com perfil de interrailistas (não encontro outro nome para os definir), com mochilas carregadas e roupa desportiva e leve, que resistiram à viagem de avião e de Flixbus para transpor as fronteiras dos países ibéricos, aproximando-se da Europa. Outros passageiros, pelo traje e pequena mochila individual, têm objetivos de viagem semelhantes: passeio ferroviário e visita à cidade capital da província espanhola da extremadura, eventualmente a Elvas. Também estudantes que regressam a casa de fim de semana e alguns passageiros habituais e frequentes.


Depois de deixar o vale do Tejo em Rossio ao Sul do Tejo, a Vila Nova de Gaia de Abrantes, o comboio mergulha em paisagens alentejanas caracterizadas por orografia suave e espécies florestais autóctones de folha perene. As paisagens florestais alteram-se, com o domínio das árvores de fuste vermelho e fornecedoras da matéria-prima bem conhecida, acompanhadas por extensos e altos povoamentos de eucalipto, alinhados e bem densos.


Uma dúzia de passageiros ruidosos entram na estação da Bemposta/São Facundo e quase enchem o comboio, constituído somente pela automotora e sem carruagens.


Os auscultadores são bem-vindos, principalmente se forem com cancelamento de ruído exterior. O concerto para piano n.º 21 de Mozart articula-se, suave e introspectivo, com o cenário rural, mas é ocasionalmente interrompido pela falta de sinal, habitual no Alentejo profundo.


Bemposta, Ponte de Sor, Torre das Vargens. Está última, uma estação imponente para o local, entroncamento de dois ramais, o que seguimos, em direção a Portalegre e Elvas, e um outro, desativado mas com uma importância histórica por ser onde passava o antigo e conceituado Lusitânia Express que efetuava a ligação noturna entre Lisboa e Madrid. Tudo isso acabou: Lusitânia Expresso (via Marvão-Beirã e, posteriormente, via Salamanca), Sud Express (nos primórdios via linha do Douro, como nos contava Eça e o seu amigo Ega, e posteriormente por Vilar Formoso). Atualmente, as únicas ligações a Espanha (e, consequentemente,  à Europa) são esta, Entroncamento-Badajoz, e a ligação Porto-Vigo. Estamos piores que há 100 anos atrás, apesar das promessas não respeitadas dos nossos governantes.


Chança, Crato, Portalegre. Estações com janelas e portas entaipadas com tijolo e cimento. Estações mortas para o exterior, mantendo-se operacionais somente as linhas.


Saída de uma dúzia de passageiros em Portalegre e 4 no Crato, dos quais dois dos identificados inicialmente como interrailistas em direção à Europa. (serão clientes do festival do Crato?) Erro de percepção, tão comum na nossa sociedade selvagem e individualista em que percecionamos os males e defeitos dos outros somente pelas características visiveis.


Neste comboio curto, parecido com um autocarro, o pica passa várias vezes, sorridente, pelo corredor, transmitindo um clima de boa disposição, ampliado pelo grupo da Bemposta, agora atracado a umas cervejas.


A paisagem trocou o sobreiro pela azinheira, com árvores centenárias dispersas em extensos campos com pastagens ou em pousio para futuras culturas cerealíferas: os característicos montados. Terrenos mais secos e calcários acolhem esta espécie protegida em Portugal.


Mozart foi também substituído pelos A-ha, fazendo associar a baixa temperatura da cabine, da responsabilidade do potente aparelho de  ar condicionado, ao país originário do grupo, e contrastando com a temperatura exterior tórrida. 


Assumar, Arronches, Santa Eulália, Elvas. A automotora continua, gingona, a aproximar-se do destino castelhano.


Em Santa Eulália saiem os 3 jovens percecionados como estudantes. O comboio retoma novamente metade da sua capacidade. Na aproximação a Elvas, o último reduto português antes da passagem da fronteira, a automotora abranda como se o trânsito na linha o justificasse. Na verdade, este ramal comporta somente  quatro comboios por dia, dois no sentido ascendente e dois no descendente. Estação com alguma dimensão, com movimento de contentores e de composições técnicas de construção e reabilitação de linhas. A estação encontra-se em ampliação. Bom sinal. 


Após Elvas, resta um número significativo de passageiros,  cerca de 1/4 da capacidade. Linha eletrificada desde este local, pela Espanha dentro, embora o veículo em que nos deslocamos o despreze.


Passagem pela fronteira sem nos apercebermos quando e onde. Lá vai o tempo em que os passageiros portugueses tinham de aguardar muito tempo nas estações fronteiriças, de apresentar passaporte, pagar 1000 escudos de taxa e, nalguns casos, sofrer um interrogatório sobre o motivo da saída.


É claramente perceptível a economia mais ativa do lado espanhol, com extensas zonas industriais, plantações intermináveis de olival,  estaleiros para construção e alargamento da rede viária, rodoviária e ferroviária, e existência de armazéns, como por exemplo da Amazon e do Leroy Merlin.


Badajoz é uma cidade com história, cheia de vestígios facilmente observáveis. Desde a cidadela, constituída por remendos que comprovam as diferentes necessidades de defesa militar entre o século IX e as invasões francesas do século XIX, até evidências físicas recentemente expostas da utilização de um veículo de transporte público puxado a cavalo, tipo chora lisboeta (el tranvia de tracción animal), entre o final do século XIX e o início do século XX.



O tempo que medeia a chegada do comboio proveniente do Entroncamento e a sua saída no final do dia, cerca de 7 horas e meia, dá perfeitamente para vaguear a pé pela cidade, bebendo da sua história, auscultando e observando os habitantes, almoçando nos seus restaurantes e degustando as suas iguarias. Nos períodos de maior calor, para efetuar este percurso pode ser necessária alguma coragem e bastante água. Um supermercado, um museu são locais onde o turista pode refugiar-se e repor a sua temperatura corporal a valores admissíveis. Também uma esplanada à sombra de árvores ou de arcadas, acompanhada de uma boa e gelada "caña", contribui para esse desiderato.


Regresso pelas 19h41. Partida a horas. Uma Allan ainda mais ronceira, gingona e tremeliques. Uma autêntica massagem dos músculos das costas e barriga  das pernas. O material circulante nestas linhas secundárias deixa mesmo a desejar. Em contrapartida, a compra de bilhetes e de passes está modernizada, praticamente digitalizada e a APP da CP permite mesmo saber online o tempo de atraso dos comboios. A app Comboios georreferencia em tempo real todos os comboios que em determinado momento (e também em histórico) estão a circular na rede ferroviária portuguesa. Mas na prática, o que adianta saber que o comboio que nos transporta está atrasado uma hora se tal facto não nos faz chegar mais rápido ao destino? Não foi o caso desta viagem em que o maquinista respeitou rigorosamente os horários.


Por ser dia 10 de junho de 2026, Dia de Portugal, foi um bom dia para visitar Espanha. 😁



Informação prática


Transportes

- Passe ferroviário verde por 20 euros mensais e que permite viajar em todos os comboios da CP exceto Alfa Pendular e urbanos.

Duas saídas por dia do Entroncamento para Badajoz e duas de regresso.

- Cidade pequena que permite ser calcorreada facilmente a pé. Caso necessite de transporte urbano há uma boa rede de autocarros elétricos com possibilidade de comprar o bilhete ao motorista (alguns aceitam cartão de débito. Levar dinheiro trocado, ou notas pequenas, pelo sim pelo não).


Restauração

- Meson El Chozo Extremeño, com um interessante e apaladado Solomillo de Ajo Tostado, embora incompatível com dia muito quente (pequenos medalhões de carne de porco muito tenra com natas, batatas e alho tostado por cima). Callos, a nossa Sobreda, é também de provar.


- Beber um copo nas esplanadas da Plaza Alta ou nos bares junto ao rio, junto ao início sul da Puente de Palmas.


Atrações

- Cidadela (Alcáçova, Torre da Força, Porta do Capitel, Museu de Arqueologia, percorrer a pé toda a muralha)

- Ponte de Palmas

- Porta de Palmas

- Praça Alta, com as casas coloridas e as esplanadas com vista para a cidadela e a Torre de Espanta Cães.

-Catedral de São João Batista e a Praça de Espanha

- Jardim de São Francisco

- Parque Castelar

- Baluarte de São Vicente

- Vias de tranvia


Vários

-Mercadona perto da estação para abastecimento alimentar e bebidas para a viagem de regresso. 😁



Boa viagem. É sempre um prazer viajar de comboio. 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A sociedade que despreza o imigrante

À entrada de Chinatown — aquele enclave vibrante onde Nova Iorque se transmuta em Ásia — deparámo-nos com uma multidão de vendedores ambulantes. Na sua maioria negros, possivelmente imigrantes em busca de sonhos intangíveis, estendiam lençóis brancos pelo chão, improvisando montras para mercadorias contrafeitas, sobretudo malas e carteiras. Com uma insistência quase desesperada, tentavam seduzir os turistas com promessas de um status efémero, passaporte de entrada na sociedade capitalista e selvagem que o governo de Trump personifica.


​Subitamente, como suricatas em alerta, os vendedores ergueram as cabeças. Num movimento coreografado pelo medo, iniciaram a debandada, arrastando os fardos de mercadoria  improvisados enquanto a polícia se aproximava. Na aflição da fuga, algumas malas caíram pelo caminho. Foi então que um casal de jovens, bem vestidos e de aparência abastada, recolheu uma das peças do chão e, sem qualquer pudor, tomou-a como sua, escondendo-a dentro do casaco.

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​O gesto serviu de metáfora perfeita: a personificação de uma sociedade que despreza o imigrante, mas que, de forma agressiva e oportunista, não hesita em usufruir do fruto do seu trabalho e sacrifício.

revisto pelo Gemini

Wrong Way

Nos EUA a sinalização rodoviária é s universal. Com algumas pequenas diferenças. Nalguns casos, as entidades responsáveis pela colocação dos sinais de trânsito preferem colocar um painel mencionando NÃO PASSAR do que simplismente implantar um sinal de sentido proibido. O sinal de sentido único é também frequentemente substituído pelo texto WRONG WAY. Nas zonas com maior população e sem semáforos, existem cruzamentos em que todas as estradas têm um sinal de stop. Perguntámos a um autóctone do porquê desse facto caricato, se as regras de prioridade também se aplicam no país. Parece que desta forma se identifica claramente o condutor que deve avançar primeiro, que é aquele que também parou primeiro no cruzamento. 🤠


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tecnologia nas nuvens


A primeira vez que tive oportunidade de transpor distância via aérea, foi no final dos anos 80 do século XX. As aeronaves, no seu interior e na perspetiva do entretenimento do passageiro, eram frugais. Nada de écrans nem informação das temperaturas exteriores, rotas em mapa-mundo, tempo e hora à chegada. As estimativas surgiam da cabeça de cada um. Já nos anos 90, principalmente nos voos de longo curto, surgiram os ecrãs públicos, otimizados para algumas, poucas, filas de viajantes. Uma imagem rudimentar da região do globo por onde se desenvolveria a viagem, com parcas informações meteorológicas e de distâncias.



Em 2009 surgiam ecrãs minusculos da cabeceira da poltrona da frente, individuas por passageiros. Recordo-me mais ou menos nessa altura, num voo da TAAG Porto Luanda,  o gigante mas elegante Boeing 777, possuía simples ecrãs pouco maiores que os dos atuais smartphones, com os quais se ocupava o tempo das longas viagens, enclausurados  no tubo voador.


Agora, abril de 2026, estamos a voar em direção a Boston, a atravessar o extenso Atlântico. Um ecrã generoso, a dois palmos do nariz, disponibiliza ao paciente viajante uma série de entretenimentos inimagináveis há 20 anos atrás. Centenas de  filmes, programas de TV, videos para relaxar, jogos de arcada, os últimos  gritos musicais, a par de obras musicais elaboradas em tempos em que os únicos voadores eram os pássaros. Os auscultadores fornecidos pelas comissárias de bordo são higienicamente substituídos pelos auscultadores bluetooth que diligentemente trazemos de casa. Os passageiros que largaram mais uns cobres para fazer a viagem de forma mais confortável que os restantes, têm á sua disposição no ecrã o menu das refeições e a carta de vinhos. Os pelintras das filas da retaguarda, ao tentarem aceder a este item, são delicadamente informados "tente mais tarde", uma maneira de dizer "para a próxima não sejam tão agarrados".  Acresce, hélas, Internet à disposição, cuja qualidade e rapidez segrega uma vez mais os passageiros: os que querem pagar mais uns paus e os forretas. Por alguns cobres podemos navegar via satélite como se estivéssemos em casa, não como com fIbra ótica, mas como se estivéssemos ligados através  de um ADSL ronceiro. Mesmo assim, a TAP democratizou as mensagens de texto, abertas a todos e permitindo meter inveja aos amigos e familiares quando a mensagem do WhatsApp surge do outro lado informando que estamos a viajar a velocidade de cruzeiro, a 850 km/h e a 12 km de altitude. 


Para fidelizar os clientes, a companhia aérea permite criar um perfil, onde se registam todos os últimos tons favoritos e que, em próximas viagens, podem ser facilmente acessíveis.


Imaginem como será  daqui a 20 anos, quando os nossos netos usufruírem  do serviço dos robotizados comissários de bordo e de  televisão imersiva, difundida do planeta Júpiter.



Viagem Boston - Lisboa, 2 de abril de 2026, TAP, Airbus 321LR

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Pelas linhas das Beiras


Há cerca de 50 anos, a viagem entre Almada e a Guarda era uma autêntica aventura. Sair muito cedo para chegar tarde. Mas ficou esse sabor do acordar nas manhãs frias e sonolentas, apimentadas pelas ânsia da viagem, que contrastava com a calorosa receção dos familiares da aldeia granítica serrana e da reconfortante sopa quente de feijão e couve acabada de tirar da panela de ferro depositada na lareira acesa.


Decidimos fazer no mesmo dia esse mesmo percurso, agora de comboio, entre o Entroncamento e a Guarda. Ida pela linha da Beira Baixa, troço cheio de recordações das viagens no sud expresso para uma Europa desconhecida, longínqua e menos aberta, e regresso pela linha da Beira Baixa, encerrada parcialmente durante vários anos para reabilitação.


Característica do segundo quarto do século XXI, o bilhete e a reserva para o comboio IC foi efetuada remotamente, com possibilidade de escolha do lugar e da carruagem. Tudo online, incluindo o pagamento. Escolhi o melhor lugar, á janela, voltado no sentido da deslocação e do lado em que esperava ter uma melhor vista. Naquele que me sentei julgando ser o correto,  o lugar tão criteriosamente escolhido saiu logrado: carruagem invertida, fazendo com que o  assento se localizasse no lado oposto ao cenário desejado, orientado no sentido oposto à deslocação do comboio e, como cereja podre em cima do bolo, um janela panorâmica que, de tão suja, concorria com a neblina matinal. Hélas!!


Partida com 1 mn de atraso. O  comboio estranhamente cheio para um sábado de manhã, fora de épocas festivas ou de fins de semana prolongados. Explica-se certamente pela oportunidade dada pelo passe verde ferroviário. Nesta viagem, cada bilhete individual, ficaria por cerca de 45 euros. Com o passe , resumiu-se a 20 euros, com a possibilidade de, durante um mês, poder viajar á borla pela rede ferroviária. Bem jogado! 🙂


Na manhã fria, a neblina ou nevoeiro acompanham permanentemente o comboio. A composição mantém-se quase cheia. Os passageiros que saíram em Coimbra B - estação que recente e infelizmente perdeu a sua irmã mais nova e central da  cidade tricana - foram compensados pelos que lá entraram. 


Pampilhosa que não é da serra. O comboio afasta-se da linha do Norte e entra na linha da Beira Alta.  Desaparecem as paisagens planas, agricultadas, com casario disperso e iniciam-se horizontes ondulados, inicialmente mais florestados e, depois de  contornar a serra do Buçaco,  mais desertos e pedregosos, por onde o comboio serpenteia, ronceiro e hesitante, mesmo após as obras de modernização que prometiam mais fluidez. 


"Senhores passageiros. Próxima estação, Nelas. Nelas. No desembarque, atenção á distância entre o comboio e a plataforma. Next  station, Mangualde."  Vislumbra-se a Serra da Estrela no horizonte. A nebula e o vidro quase opaco não permitem identificar neve que, devido às baixas temperaturas, deve ser significativa nas zonas mais altas. Aproxima-se Mangualde. Junto á via, numa zona plana, um monumento assinala o maior acidente ferroviário ocorrido em Portugal. Alcafache. Simples e recôndita aldeia, ligada à linha ferroviária, ficou conotada negativamente com aquele sinistro acidente provocado pela má comunicação entre os chefes das estações opostas, onde dois comboios, deslocando-se em sentidos opostos, embatem violentamente, causando uma amálgama de destroços e vários incêndios devido ao combustível das locomotivas e do aquecimento, ampliado pelos materiais altamente combustíveis que integravam as composições. Mais de 140 mortos, número indefinido devido á violência do incêndio. 


Estas memórias tétricas são interrompidas pelo ruído de um extenso grupo folclórico que irrompeu de uma das extremidades da carruagem e que percorreu todo o comboio cantando as janeiras em alto e bom som, para gáudio dos passageiros. Lá fora, o Mondego acompanha o comboio e a paisagem, despida de floresta adulta, com blocos de granito dispersos,  giesta e zonas ardidas. O sol, tímido, começou a rasgar o nevoeiro.


A estação de Vila Franca das Naves é uma espécie de elevador da linha da Beira Alta. Para atingir os cerca de 800 metros de altitude da estação da Guarda, de forma suave e que permita ser comquistado por um comboio, a linha sobe linearmente de Celorico da Beira (400 m de altitude) até Vila Franca das Naves (550 m), curvando depois num ângulo de 180° até avançar para  estação terminal. A sul de Vila Franca das Naves, o comboio passa a 500 metros da linha onde tinha acabado de circular numa direção oposta.


Chegada á estação da Guarda com meia hora de atraso. Frio. Temperatura idêntica ao do local da partida, quase 4 horas antes.


No início da tarde parte novo IC, agora de regresso ao Entroncamento pela linha da Beira Baixa. Sai vazio, no sentido descendente, ao longo do mesmo vale por onde se estende a A23, embora na íngreme encosta oposta. Sabugal (curiosamente com a estação muitos  poucos quilómetros depois da da Guarda), Benespera, Belmonte, Covilhã, onde entra mais gente, jovens, provavelmente estudantes universitários. O comboio fica mais compostinho. Fundão, com a serra da Gardunha ao fundo. Os engenheiros ferroviários do século XIX, sem os meios e recursos atuais, para evitar construir um túnel de enorme dimensão, decidem contornar parte da serra para a ultrapassar. Alpedrinha, Alcains e chegada à cosmopolita e interior Castelo Branco. E lá vai o comboio em direção a sul, tal comboio descendente de Fernando pessoa cantado pelos Trovante.


Quando o ar condicionado da carruagem se desliga momentaneamente, resta um abafado e longínquo ranger da carroçaria e rodadados que, associado ao balancear do comboio, faciliita a introspecção e o relaxamento. O comboio segue agora ao longo do rio Tejo, a meia encosta, em vale cavado cheio de água represada e que espelha os lânguidos raios solares do final da tarde. Uma das margens, oposta à linha, com vegetação densa e intransponíveis, abre-se aos caminhantes e amantes sonhadores da natureza. É a pequena rota da sirga.


Chegada a terras ribatejanos no final do dia.  A viagem de comboio e não o destino atingido, foi em si uma  agradável atividade de lazer e de recordação de bons e longínquos  momentos vividos naquelas linhas.



Informações úteis:


Bilhete - passe verde ferroviário, para residentes em Portugal, com validade  de 30, 60 ou 90 dias e que permite viajar por todo o país em comboios regionais ,interregionais e intercidades, em segunda classe.  Um verdadeiro interrail dentro de portas.