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sábado, 13 de junho de 2026

Espanha aqui tão perto... de comboio

Mais uma viagem com o passe verde ferroviário. Entroncamento até Badajoz e volta.


Na velha estação, a automotora a diesel Allan espera os parcos passageiros com o orgulho dos seus 70 anos. Por ter sofrido uma operação de botox há 25 anos, com ar condicionado e poltronas mais cómodas, lá cumpre dignamente a sua missão ao longo das cerca de 3 horas de viagem e 180 km até à cidade da extremadura espanhola, ronceira e tremeliques. A linha também não ajuda.


Afinal, o comboio sai compostinho: a chegada de um intercidades do norte alimentou a Allan com passageiros suficientes para encher metade da sua capacidade.


Saída a horas, após acionada a buzina estridente. 9h06. O ar condicionado começou a funcionar. Cabeça fresca que fez despertar para os passageiros vizinhos. Em viagens de comboio é interessante, como um jogo, adivinhar os destinos dos outros passageiros. Alguns jovens com perfil de interrailistas (não encontro outro nome para os definir), com mochilas carregadas e roupa desportiva e leve, que resistiram à viagem de avião e de Flixbus para transpor as fronteiras dos países ibéricos, aproximando-se da Europa. Outros passageiros, pelo traje e pequena mochila individual, têm objetivos de viagem semelhantes: passeio ferroviário e visita à cidade capital da província espanhola da extremadura, eventualmente a Elvas. Também estudantes que regressam a casa de fim de semana e alguns passageiros habituais e frequentes.


Depois de deixar o vale do Tejo em Rossio ao Sul do Tejo, a Vila Nova de Gaia de Abrantes, o comboio mergulha em paisagens alentejanas caracterizadas por orografia suave e espécies florestais autóctones de folha perene. As paisagens florestais alteram-se, com o domínio das árvores de fuste vermelho e fornecedoras da matéria-prima bem conhecida, acompanhadas por extensos e altos povoamentos de eucalipto, alinhados e bem densos.


Uma dúzia de passageiros ruidosos entram na estação da Bemposta/São Facundo e quase enchem o comboio, constituído somente pela automotora e sem carruagens.


Os auscultadores são bem-vindos, principalmente se forem com cancelamento de ruído exterior. O concerto para piano n.º 21 de Mozart articula-se, suave e introspectivo, com o cenário rural, mas é ocasionalmente interrompido pela falta de sinal, habitual no Alentejo profundo.


Bemposta, Ponte de Sor, Torre das Vargens. Está última, uma estação imponente para o local, entroncamento de dois ramais, o que seguimos, em direção a Portalegre e Elvas, e um outro, desativado mas com uma importância histórica por ser onde passava o antigo e conceituado Lusitânia Express que efetuava a ligação noturna entre Lisboa e Madrid. Tudo isso acabou: Lusitânia Expresso (via Marvão-Beirã e, posteriormente, via Salamanca), Sud Express (nos primórdios via linha do Douro, como nos contava Eça e o seu amigo Ega, e posteriormente por Vilar Formoso). Atualmente, as únicas ligações a Espanha (e, consequentemente,  à Europa) são esta, Entroncamento-Badajoz, e a ligação Porto-Vigo. Estamos piores que há 100 anos atrás, apesar das promessas não respeitadas dos nossos governantes.


Chança, Crato, Portalegre. Estações com janelas e portas entaipadas com tijolo e cimento. Estações mortas para o exterior, mantendo-se operacionais somente as linhas.


Saída de uma dúzia de passageiros em Portalegre e 4 no Crato, dos quais dois dos identificados inicialmente como interrailistas em direção à Europa. (serão clientes do festival do Crato?) Erro de percepção, tão comum na nossa sociedade selvagem e individualista em que percecionamos os males e defeitos dos outros somente pelas características visiveis.


Neste comboio curto, parecido com um autocarro, o pica passa várias vezes, sorridente, pelo corredor, transmitindo um clima de boa disposição, ampliado pelo grupo da Bemposta, agora atracado a umas cervejas.


A paisagem trocou o sobreiro pela azinheira, com árvores centenárias dispersas em extensos campos com pastagens ou em pousio para futuras culturas cerealíferas: os característicos montados. Terrenos mais secos e calcários acolhem esta espécie protegida em Portugal.


Mozart foi também substituído pelos A-ha, fazendo associar a baixa temperatura da cabine, da responsabilidade do potente aparelho de  ar condicionado, ao país originário do grupo, e contrastando com a temperatura exterior tórrida. 


Assumar, Arronches, Santa Eulália, Elvas. A automotora continua, gingona, a aproximar-se do destino castelhano.


Em Santa Eulália saiem os 3 jovens percecionados como estudantes. O comboio retoma novamente metade da sua capacidade. Na aproximação a Elvas, o último reduto português antes da passagem da fronteira, a automotora abranda como se o trânsito na linha o justificasse. Na verdade, este ramal comporta somente  quatro comboios por dia, dois no sentido ascendente e dois no descendente. Estação com alguma dimensão, com movimento de contentores e de composições técnicas de construção e reabilitação de linhas. A estação encontra-se em ampliação. Bom sinal. 


Após Elvas, resta um número significativo de passageiros,  cerca de 1/4 da capacidade. Linha eletrificada desde este local, pela Espanha dentro, embora o veículo em que nos deslocamos o despreze.


Passagem pela fronteira sem nos apercebermos quando e onde. Lá vai o tempo em que os passageiros portugueses tinham de aguardar muito tempo nas estações fronteiriças, de apresentar passaporte, pagar 1000 escudos de taxa e, nalguns casos, sofrer um interrogatório sobre o motivo da saída.


É claramente perceptível a economia mais ativa do lado espanhol, com extensas zonas industriais, plantações intermináveis de olival,  estaleiros para construção e alargamento da rede viária, rodoviária e ferroviária, e existência de armazéns, como por exemplo da Amazon e do Leroy Merlin.


Badajoz é uma cidade com história, cheia de vestígios facilmente observáveis. Desde a cidadela, constituída por remendos que comprovam as diferentes necessidades de defesa militar entre o século IX e as invasões francesas do século XIX, até evidências físicas recentemente expostas da utilização de um veículo de transporte público puxado a cavalo, tipo chora lisboeta (el tranvia de tracción animal), entre o final do século XIX e o início do século XX.



O tempo que medeia a chegada do comboio proveniente do Entroncamento e a sua saída no final do dia, cerca de 7 horas e meia, dá perfeitamente para vaguear a pé pela cidade, bebendo da sua história, auscultando e observando os habitantes, almoçando nos seus restaurantes e degustando as suas iguarias. Nos períodos de maior calor, para efetuar este percurso pode ser necessária alguma coragem e bastante água. Um supermercado, um museu são locais onde o turista pode refugiar-se e repor a sua temperatura corporal a valores admissíveis. Também uma esplanada à sombra de árvores ou de arcadas, acompanhada de uma boa e gelada "caña", contribui para esse desiderato.


Regresso pelas 19h41. Partida a horas. Uma Allan ainda mais ronceira, gingona e tremeliques. Uma autêntica massagem dos músculos das costas e barriga  das pernas. O material circulante nestas linhas secundárias deixa mesmo a desejar. Em contrapartida, a compra de bilhetes e de passes está modernizada, praticamente digitalizada e a APP da CP permite mesmo saber online o tempo de atraso dos comboios. A app Comboios georreferencia em tempo real todos os comboios que em determinado momento (e também em histórico) estão a circular na rede ferroviária portuguesa. Mas na prática, o que adianta saber que o comboio que nos transporta está atrasado uma hora se tal facto não nos faz chegar mais rápido ao destino? Não foi o caso desta viagem em que o maquinista respeitou rigorosamente os horários.


Por ser dia 10 de junho de 2026, Dia de Portugal, foi um bom dia para visitar Espanha. 😁



Informação prática


Transportes

- Passe ferroviário verde por 20 euros mensais e que permite viajar em todos os comboios da CP exceto Alfa Pendular e urbanos.

Duas saídas por dia do Entroncamento para Badajoz e duas de regresso.

- Cidade pequena que permite ser calcorreada facilmente a pé. Caso necessite de transporte urbano há uma boa rede de autocarros elétricos com possibilidade de comprar o bilhete ao motorista (alguns aceitam cartão de débito. Levar dinheiro trocado, ou notas pequenas, pelo sim pelo não).


Restauração

- Meson El Chozo Extremeño, com um interessante e apaladado Solomillo de Ajo Tostado, embora incompatível com dia muito quente (pequenos medalhões de carne de porco muito tenra com natas, batatas e alho tostado por cima). Callos, a nossa Sobreda, é também de provar.


- Beber um copo nas esplanadas da Plaza Alta ou nos bares junto ao rio, junto ao início sul da Puente de Palmas.


Atrações

- Cidadela (Alcáçova, Torre da Força, Porta do Capitel, Museu de Arqueologia, percorrer a pé toda a muralha)

- Ponte de Palmas

- Porta de Palmas

- Praça Alta, com as casas coloridas e as esplanadas com vista para a cidadela e a Torre de Espanta Cães.

-Catedral de São João Batista e a Praça de Espanha

- Jardim de São Francisco

- Parque Castelar

- Baluarte de São Vicente

- Vias de tranvia


Vários

-Mercadona perto da estação para abastecimento alimentar e bebidas para a viagem de regresso. 😁



Boa viagem. É sempre um prazer viajar de comboio. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Praia de Viñó e vizinhas


A menos de 1 hora de Portugal, o extenso trio de cerca de 2 km das praias da Barra, Vinó e Nerga, é uma boa opção para um dia de verão bem passado. Individualizadas por separadores naturais de rocha, distinguem-se por areia branca e fina, águas transparentes pancromáticas e uma fulgurante vista sobre a costa de Vigo e as ilhas Ciès.

Localizam-se ainda na ria de Vigo e separa-as do mar um promontório com farol, o cabo Home. (daí o nome de Barra).

A praia da Barra é especialmente vocacionada para naturistas, embora a separação não seja clara: há uma maior percentagem de nudistas nesta praia, mas também, em menor quantidade, nas restantes. Tudo muito natural e descomplexado, como deve ser, na presença de famílias e crianças.

Existem alguns pequenos parques de estacionamento perto das praias, sendo o maior e mais acessível o de Nerga.

Todas as praias têm "chiringuitos", pequenos bares de praia, alguns abarracados, que servem bebidas e refeições ligeiras.

Pelo menos a praia de Nerga tem bandeira azul.

Estivemos lá em agosto de 2024, num dia de semana e escolhemos a praia de Vinó, com pinhal bravo muito perto da areia, com árvores de grande dimensão, que oferecem uma frondosa e  reconfortante sombra. A área integra zona especial de conservação - ZEC, da rede natura 2000. Optámos por um parque de estacionamento mais junto á praia, num terreno privado, coberto de vegetação rasteira e com muita sombra. Valeu o dispêndio de 3,5 euros.

Há possiblidade de se realizarem passeios pedestres, por sendas que cortam florestas, mato e rochas, alguns junto á linha de água.

Valeu a pena. Grande extensão de areia branca, águas transparentes e calmas, abrigadas do vento norte e com temperatura que faz inveja às praias do norte de Portugal.

https://maps.app.goo.gl/ntDs4RYSUvfzMLjS9 




sábado, 24 de agosto de 2024

Caldas romanas de Bande

O decuriäo Caius Lupus entrou no castrum de Aquis Querquennis pela entrada poente cansado, sujo e ferido. A tarefa de proteção dos trabalhadores da manutenção da Via XVIII, entre Braga e Astorga, nem sempre era fácil e o confronto com salteadores era constante. Também as revoltas de escravos inconformados, oriundos dos terrenos conquistados da Ibéria, eram constantes e desgastantes.

No alojamento dos oficiais, ao lado das casernas dos legionários, retira a sua armadura de couro e metal, o subarmalis e deposita o gládio e o escudo ao canto.  Vestiu a toga pura.  Pegou no cálice de vidro e nele verteu da ânfora um líquido cristalino e de cheiro forte, a posca, muito apreciado pelos soldados romanos pelas suas qualidades refrescantes e antibacterianas.

Ordena a Amanirenas, escrava núbia esguia, roliça e de pele sedosa, vestida com uma túnica de linho que lhe realçava as formas, que se dirigisse aos banhos, transportando os óleos e a strigula,  e seguiu para as instalações do hospital de Campanhã para sutura das feridas.

Corpo reconstruído, dirigiu-se para os banhos cálidos, saindo pela porta nascente do acampamento muralhado e passando pelo faustoso espaço do pretório. O rio Lima serpenteava lá no fundo do vale.

As águas termais espalhavam-se por várias piscinas onde já outros militares de patente superior se banhavam. Caius retirou a toga, entregou-a á escrava núbia e, naquele dia frio de inverno, lentamente, entrou nas águas quentes e fumegantes. Sentou-se nas pedras de apoio e sentiu a água quente, a mais de 40 graus, dilatar-lhe os poros da pele e a cicatrizar as feridas recentemente suturadas.  Relaxe total. Ainda observou Amanirenas a caminhar em sua direção mas, entretanto, adormeceu. 

Acordei. 

Olhei em volta. As termas romanas mantinham-se intactas. A água borbulhava, aquecida pelo núcleo quente da terra. O castrum passou a ruína bem conservada, parcialmente submerso pelas águas da recente albufeira da barragem das Conchas. Júlio Iglésias cantava numa coluna portátil ligada a um telemóvel, confortando uma espanhola balsaquiana que dourava ao sol.

Não vi a escrava núbia. Decepcionado, regressei a Portugal. 


Caldas romanas de Bande, Ourense, Galiza, Espanha

Local

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Isla de Ons

O arquipélago das ilhas Ons, integrado no Parque Nacional das Ilhas Atlânticas, barra a desembocadura da ria de Pontevedra.

A ilha de Ons é a mais extensa da costa atlântica da península ibérica, possui habitantes permanentes e uma diversidade biológica e paisagística digna de visita.

25de agosto de 2022


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terça-feira, 26 de abril de 2022

Novamente o alto Minho

Minho. Novamente alto Minho. Não cansa. Fim de semana prolongado sobre o qual, felizmente, o IPMA se enganou redondamente.
Iniciámos o caminho muito batido entre Ponte da Barca e Lindoso onde já não são habituais as pequenas manadas das bem domesticada vacas de raça minhota, regressando ordeira e lânguidamente ao seu estábulo, pela berma da estrada nacional. 
Logo após entrada em Espanha e ultrapassada a casa vazia da Guarda fronteiriça  que lembra o Estado Novo, guinámos para norte e transposemos a carente albufeira do Lindoso, que ainda, a esta data, regista níveis hidrometricos históricos. A carcaça da antiga aldeia de Aceredo, que emergiu do Lima depois de escondida desde o início dos anos 90 do século passado, vem encher de nostalgia os seus antigos habitantes.
Percorremos um dos extremos mais recônditos de Espanha, o município raiano e exaurido de Entrimo, com pouco mais de 1000 habitantes. Aldeias perdidas no tempo e no nevoeiro, com os seus habitantes envergando rudes mantelas, apascentando a sua fonte de subsistência. 
Surge de fronte o maciço granítico da Serra da Peneda. Habitualmente visitado do lado português, agora na perspetiva de nascente. Castro Laboreiro, no extremo noroeste do nosso único Parque Nacional, invadida por turistas à procura de  ar puro e do gosto do cabrito assado. Nunca mencionem aos seus habitantes o "Parque do Gerês". Tão grave  como referir parque natural de Sintra ou parque natural de Cascais aos habitantes de Cascais ou de Sintra, respetivamente. Não estamos no Gerês mas sim na Peneda.
Encostas com explosões lilases que não o são. Não são lilases mas sim urzes que despontam na Primavera.
Passagem por localidades perdidas no meio do nada, que não o são ou que o são noutro lado: Alcobaça, Barreiro, Adofreire, até finalmente chegarmos a Cevide.
Cevide. A localidade mais setentrional de Portugal, ladeada pelos rios Minho e  Trancoso, terra de contrabandistas passados, homens e mulheres. Guardião do marco de fronteira n°1 com Espanha, estrategicamente aproveitado pelos arautos dos passadiços.
- Olá. Estão de visita a Cevide? Eu sou o Mário . 
Foi com estas palavras que se apresentou o  anfitrião do simbolismo deste local. O Mário é enfermeiro no hospital de Ponte de Lima mas sempre que pode desloca-se com a mulher para uma antiga casa de seus antepassados e incrementam a residual população de Cevide. Forte divulgador da história e geografía local, aproveita também para vender um alvarinho que, embora tenha a proveniência da Quinta de Soalheiro, atribuiu-lhe o nome de "aqui começa Portugal" em homenagem à aldeia e ao referido marco. Extrovertido e falador, consegue facilmente convencer os visitantes do valor histórico daquele local. E até ficámos a saber que é colega de trabalho da nossa prima Alzira. 🙂
Próxima paragem: Melgaço. A transbordar de visitantes para a feira anual do alvarinho e do fumeiro, não sobrou um simples lugar de estacionamento. Nem sequer em uma dos passeios ou a ocupar parcialmente a faixa de rodagem. 
Seguimos de imediato para a luminosa Vigo, porta de entrada das rias baixas e um ótimo local para degustar fresco "mejillones" e outro marisco. A zona do Porto, cosmopolita, atrai passeantes de domingo e músicos de ocasião. 
De regresso a Ponte de Lima, como bons portugueses que já não têm caramelos para comprar, enchem o depósito com combustível galego que permitirá uma viagem  mais suave à região ribatejana. 

sábado, 28 de agosto de 2021

Caminho de Santiago - dia 4 - 23ago2021 - O Porriño - Arcade de Riba - 23, 2 km



Um dos troços mais duros. Não só pela orografia, com alguns desníveis que são um autêntico desafio à resistência dos articulações e dos músculos, mas também por ser um dos mais extensos, e a temperatura do ar ter atingindo os 37°C. O dia mais quente do percurso.



O planeamento  rigoroso da logística desta aventura é o garante que tudo correte pelo melhor. A reserva do alojamento tem de respeitar a distância adequada entre os locais de estada para que cada troço não vá muito para além ou aquém dos 20 km. Se determinada povoação já não tem alojamento (o mês de agosto é  um período de muita demanda), torna se necessário ajustar todas as outras para que esta regra seja respeitada. 

O plano foi também delineado  no sentido de iniciar a caminhada cerca das 6h30mn. Como em qualquer plano, a falha veio ao de cima: com a diferença de fuso horário entre Portugal e Espanha, o   nascer do sol, neste período do ano, ocorre quase às  8horas da manhã. Para evitar caminhar sem luz, o início da caminhada matinal é atrasado significativamente. Desvantagem: chegada  mais tarde ao destino. Vantagem: mais uma hora na  cama. 😁


Com o aumento da latitude o Caminho aproxima-se da recortada costa galega, impressa pelas peculiares Rias  Baixas. A paisagem florestal, ponteada por pequenas localidades alvas e com perfil luso,  cruza-se com planos de água cintilante e com imensas jangadas dispersas, produtoras de mexilhão. Segundo o turismo de Vigo, em cada viveiro podem criar-se até 200 toneladas de mexilhões, um produto com denominação de origem que demora cerca de 18 meses a estar pronto para consumo. Espanha é dos maiores produtores mundiais deste bivalve. Nenhum caminhante ou peregrino deve deixar de degustar este molúsculo, à espanhola, de tomatada ou de conserva, acompanhado com um alvarinho ou, porque o peregrino/caminhante é  teso, pode este ser substituído por uma Estrella Galicia. Se o não fizer não lhe será emitida a Compostela. 😁

Uma das zonas mais perigosas do Caminho de Santiago são os cerca de 400 metros antes de se chegar a Arcade de Riba, que se percorrem pela diminuta berma da movimentada estrada nacional 550. O movimento dos caminhantes efetua-se no mesmo sentido que as viaturas, que surgem rápida e inesperadamente por detrás.  Vale pela deslocação do ar, refrescante, provocada pelos  pesados e altos camiões TIR.




Chegada a Arcade de Riba e ao já reservado albergue, contiguo ao Caminho.

- Cómo se soletra tu nombre? No. No tengo ninguna reserva a este nombre. Depois de ter explicado que a reserva foi efetuada pelo Booking e ter mostrado o voucher de confirmação, o galego e proprietário, que fazia jus aos seus compatriotas que emigraram para Lisboa no início do século passado e que, mais tarde, ocuparam as tascas da capital, lá admitiu o erro patente no caderninho de merceeiro e entregou-me a merecida chave de acesso ao gavetão para armazenamento da mochila e restantes pertences. 

Albergue cheio, medias preventivas contra a COVID inexistentes. Qual certificado de vacinação, qual carapuça...






terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cruzeiro no Mediterrâneo

 "Cruzeiros são actividades turísticas para velhos". Uma frase facilmente rebatida depois de lerem este texto.


Navegando pela Internet descobrimos o melhor preço: novamente a agência de viagem virtual Logitravel com valores imbatíveis. Ficou em cerca de 1800 euros para dois adultos e duas crianças, já incluindo taxas (nesta coisa dos cruzeiros existe uma taxa que é paga no final da viagem, que não está incluída. É a denominada taxa de serviço, comummente chamada de gorjeta, e que teoricamente irá para os empregados que tão amável e incansavelmente nos serviram durante os 7 dias). A companhia operadora era a Pullmantur e o barco o Oceanic.

Partida de Barcelona a um domingo e regresso a esse mesmo porto 8 dias depois, fazendo escala nos portos ou baías de VielleFranche-sur-Mer/França, Livorno/Itália, Civitavechia/Itália, Nápoles e Tunes/Tunísia.

E lá fomos. Duas famílias com duas viaturas partiram da Meia Via no dia 21 de Dezembro, de madrugada, com destino a Lérida onde pernoitámos no frugal hotel de estrada Formula 1 (apesar de tudo pertence à cadeia Accor). Até aqui chegarmos aproveitámos para espreitar algumas cidades no percurso (Salamanca, Tordesilhas, Burgos).

Chegámos a Barcelona na manhã da partida, dia 22. Deu para batermos algumas zonas mais turísticas (RamblasMonjuic) antes de, pelas 14 horas, fazermos o check-in no porto daquela cidade. Primeiro contacto com o barco. Dimensão razoável, com muitos espaços exteriores, um pouco antiquado e o camarote, apesar de interior era confortável.

E lá partimos de Barcelona, rumo ao sul de França, com o por do sol a tingir de rubro o horizonte.

Durante a manhã do segundo dia, chegámos a VilleFranche-Sur-Mer, uma pequena enseada a poucos quilómetros a nascente de Nice, local onde o barco atracou. Pequenas lanchas transferiam-nos para o porto onde apanhámos o comboio para o Mónaco. Como efectuamos em todas as escalas do navio, não nos subjugámos às excursões organizadas, caras e estandardizadas. Com a facilidade de acesso à informação (horários, mapas, fóruns de discussão, etc.) organizámos personalizadamente as visitas às cidades próximas dos locais de acostagem.

No terceiro dia, véspera de Natal, e após chegada ao porto de Livorno, alugámos um táxi para todos os 8 e vistamos as cidades de Florença e de Pisa. Aqui visitámos a Piazze del Duomo onde constatámos a inclinação da célebre torre, nas nossas mentes desde tenra idade. Chegámos ao porto de Civitavechia no dia 25 de Dezembro. Visitar Roma no dia de Natal revelou-se uma experiência curiosa: o primeiro dia em que não passávamos o Natal em família. No entanto esta situação foi superada pela visita aos locais paradigmáticos de Roma: Coliseu, Vaticano, Praça de Espanha, Fonte de Trevi. Quem visitar Roma aproveite um bilhete diário que dá para viajar em todos os transportes ilimitadamente, incluindo o comboio para e de Civitavechia. Não levem canivetes ou materiais semelhantes quando visitarem a Basílica de S.Pedro e o Vaticano, caso contrário, ou não entram, ou terão de os deixar à porta.

Em Nápoles não percam a oportunidade de visitar Pompeia. Uma viagem de comboio ao longo da costa, com a Baía de Napoles a poente e o Vesúvio a nascente.

No quinto dia, em Túnis ninguem quis ir a terra. Avancei sozinho para o desconforto da Medina com os seus souks de progressão difícil e lenta mas de uma beleza incrível. Uma passagem muito rápida por Cartago não deu para satisfazer a sede de informação histórica sobre a civilização.

Os dias restantes, até nova atracagem em Barcelona, foram de navegação. A Sofia e a Susana aproveitaram o jacuzi e ceu aberto e outras actividades, que não faltaram, no interior e exterior do navio. Houve ainda oportunidade para participarmos todos num jantar temático (as mil e uma noites) onde avançámos todos com indumentária indicada.

Vida a bordo: divinal. Regime de tudo incluído o que nos fazia estar constantemente com fome e com sede. Entre as 7 horas e as 4 da manhã do dia seguinte, existia sempre um bar aberto ou um restaurante/snack-bar pronto a satisfazer-nos os mais requintados apetites. Espectáculos constantes, para adultos e crianças, eliminando completamente aquilo que sempre pensámos existir numa viagem de alto mar: o tédio.

Para encerrar o périplo, permanecemos cerca de 3 dias em Salou, onde passámos a noite de fim-de-ano, e de onde fizemos um incursão de um dia a Andorra (ai as compras...)

De certeza que a Lourdes, o Rui, a Sofia, a Susana, o Jorge, a Luísa, o Miguel e a Leonor vão demorar a esquecer esta viagem.

Dicas:

  • Como já foi dito, não embarquem nas excursões organizadas em cada um dos portos onde o navio faz escala. São a preços exorbitantes e retiram o prazer de, antecipadamente, fazer o planeamento desses percursos, conseguindo valores 2 a 3 vezes inferiores.
  • Barcelona é uma cidade muito cara, inclusive no alojamento. Experimentem alugar um apartamento numa cidade vizinha (por exemplo Salou) onde particularmente na época dita baixa se conseguem autenticas pechinchas (conseguimos apartamento por 30euros/noite, abrangendo a noite de fim de ano). Este esquema só funciona se, claro, tiverem meio de transporte próprio.
  • Os hotéis Formula 1 são uma boa opção para pernoitar em viagem, a preços relativamente baratos (cerca de 25euros um quarto que dá para 3 pessoas ou 2 adultos e 4 crianças), mesmo que tenham alguma carência em comodidades. Mas afinal é só para dormir (pena que não existam em Portugal).
  • O metro de superfície em Tunes faz uma óptima ligação entre a capital, o porto e Cartago.
  • Mesmo que pequena, uma viagem de carro justifica a utilização de um GPS. Aconselho um TomTom: fáceis de manusear e baratos.



Ficha de viagem

País: Espanha, França, Mónaco, Itália, TunísiaAndorra
Cidades/locais visitados: Salamanca, Tordesilhas, Burgos, Lérida, AndorraSalouTarragona, Barcelona, VilleFranche-sur-Mer, Mónaco, Pisa, Florença, Roma, Nápoles, Pompeia, Túnis, Cartago
Meios de transporte utilizados: Automóvel, Barco, Comboio, Autocarro, Táxi
Data de início: 21de Dezembro 2007
Data de Fim: 2 de Janeiro 2008
Tempo de permanência: 13 dias
Mapa: