domingo, 20 de setembro de 2026

Interrail doméstico... ou nem tanto.


Quando se fazia o Interrail na tenra idade de 20 anos, sabíamos que nos tínhamos de despir de comodidades e luxos. 40 anos depois decidimos retomar esses velhos tempos, agora aproveitando o passe verde da CP. Um teste à acomodação normal da idade começou numa terça feira de agosto, com meteorologia pouco convidativa. Mochila às costas, mas sem abastecimento de conservas, como era habitual naqueles tempos idos. A carteira ia um pouco mais recheada.

Entroncamento - Porto. A saída matinal num intercidades compostinho de passageiros, permitiu também uma chegada temprana à cidade invicta, descontando, naturalmente, o crónico atraso dos comboios da CP. Carruagens idênticas às que as composições francesas usavam nos anos 80 do século passado. 
Porto Campanha - Porto São Bento. Uma curta viagem de 5 mn com uma vista maravilhosa da margem norte do Douro, para as pontes, arribas, serra do Pilar e Gaia. Chegada a São Bento, a estação-monumento, ocupada mais por turistas que visitam os célebres azulejos figurativos historiados e policromáticos de inspiração arte nova e barroca, do que por passageiros. 

https://maps.app.goo.gl/kGj4Bp3h9hV5DfEo7

Visita rápida á cidade e à zona ribeirinha de Gaia, a passo apressado, característico dos passeios pelas Europa nos anos 80. O comboio não espera e é ainda necessário encher o estômago. A visita á tasca Sol e Sombra, perto do Coliseu, considera-se algo não exequível nos tempos do turismo jovem, só igualável a uma ida esporádica e justificada por acontecimento festivo a um McDonald's, depois de contar os francos, coroas ou dramas.
- Uma bifana, caldo verde e batata frita, por favor. Para beber, uma imperial.
- Não tenho imperial nem sei o que é - referiu o empregado bonacheirão, inicialmente sério e depois com ar trocista. 
- Certo. Acusamos o toque.Afinal somos mouros. Traga lá os finos.

https://maps.app.goo.gl/yoZ7y9LPgqoUXVPw9

Porto - Pocinho. Após regresso a Campanhã, num comboio interregional com destino à cidade minhota e fronteiriça de Valença, entrámos num longo comboio, com cerca de 6 carruagens diversificadas tanto em cor como em formato. Mas todas elas com janelas de guilhotina que permitem abertura e efetuar a ação mais agradável que a um interralista era permitido naquela altura, quando da passagem pelos vales glaciares alpinos, dos vinhedos e castelos renascentistas do Vale de Loire ou dos extensas e silenciosas pastagens das Higlands divididas por muros de pedra seca que confinam os rebanhos de ovelhas: viajar em pé, com a cabeça parcialmente de fora, ao vento e estarrecidos com os mutáveis cenários.
Apartir da estação de Pala, a linha do Douro acompanha o rio homónimo. Sempre pela margem norte. Aregos, a adorada estação da fictícia Tormes, onde Jacinto e Zé Fernandes desenjoavam dos hábitos e da gastronomia rotineiros de Paris. A Régua, histórico interposto comercial do vinho do Porto, de onde partiam os barcos rebelos, está rodeada de altas e longas encostas, riscadas por socalcos que sustentam antigas cepas. Aguardámos o habitual pregão das vendedeiras de rebuçados de açúcar e limão, primorosamente embrulhados em papel e que surgiam habitualmente no cais da estação. Nada. Aquelas mulheres, que de cesto de verga tapado com pano de linho branco esperavam os clientes, desapareceram e privando-nos de doces momentos.
Este troço de linha férrea é acompanhados pelas importantes mas obstrutoras barragens: Crestuma-Lever, Carrapatelo, 
 Régua, Valeira e Pocinho. A construção da barragem da Caldeira, nos anos 80 do século XX, foi responsável pela alteração da linha do Douro, promovendo uma nova travessia cerca de 1,5 km a montante da ponte treliçada de ferro originalmente construída no século XIX. As bases de sustentação em cada margem ainda dão visíveis.

Pocinho e Vila Nova de Foz Côa 
As passadas viagens de interrail, embora sustentadas no comboio, permitiam aos viajantes a paragem nalgumas cidades ou zonas que mereciam visita. Foi o que fizemos nesta zona douriense do distrito da Guarda.
Chegada a meio da tarde à estação do Pocinho. Vários passageiros, turistas, nem saíram do comboio. Regressavam ao ponto de início. 
Seguindo a filosofia do interralista, carente de divisas, procurámos um económico autocarro que permitisse ultrapassar a distância de cerca de 7 km, serra acima. Na verdade, com estas modernices da internet, já sabíamos da sua inexistência, ou melhor, da parca frequência de dois diários. Nada á vista. Á vista, sim, um sinal de parqueamento de táxis onde constava uma placa com o nome e os telemóveis de dois taxistas. Optando pela solução mais dispendiosa mas mais prática, fugindo á filosofia espartana da viagem, tentámos o primeiro número: o da Ilda.
- Boa tarde. Precisávamos de transporte para a pousada de juventude de Vila Nova de Foz Côa. Está perto?
- Sim, sim. Estou em Santo Amaro e rapidamente chego á estação. 
Encontrada no mapa a localidade de Santo Amaro, verificou-se que o tempo demorado a percorrer o trajeto até á estação não era permitido pelas leis da física. 
A simpática D. Ilda, uma fozcoense pequena e muito dinâmica, na casa dos sessenta, aparcou no seu lugar e, sorridente, abriu o porta bagagens do moderno Mercedes station wagon para acolher as mochilas. Entrámos na viatura com equipamento de nave espacial e voámos em direção ao destino. Durante a subida pela estrada nacional, as curvas eram cortadas pela esquerda, a velocidade era a da luz e apercebemo-nos que a opção de rejeitar o percurso pedestre foi o melhor.


A pousada de juventude, edifício relativamente moderno e implantado na cumeada de um vale por onde corre uma linha de água afluente do Douro, acolhe atualmente pessoas de todas as idades e possui quartos com casa de banho privativa, contrariamente às antigas pousadas, onde as camaratas eram rainhas únicas. Quartos com vista para o vale (e para a povoação de Santo Amaro, brilhante no outro lado do vale), agradável esplanada, anfiteatro ao ar livre, salas de lazer, de refeições e cozinha, as instalações desta hospedaria fazem inveja a muitos hotéis. 

https://maps.app.goo.gl/3WnqxA7FHmM2NJ567

Como verdadeiros interralista fomos adquirir alimentos para o jantar. Deparámo-nos com a frutaria Mirita, bem no centro da cidade (sim, Vila Nova de Fica Côa já é cidade). A Mirita e o seu marido receberam-nos sorridentes no seu minúsculo supermercado que de fruta tinha pouco. Reinadia, a Mirita fez tudo para nos contentar e apresentou todas as iguarias que posuia e que pudessem satisfazer o repasto próximo.
Conversa puxa conversa, veio á baila o encerramento da linha do Sabor (Pocinho - Três Igrejas / Miranda do Douro) e do Douro entre Pocinho e Barca D'Alva, linha que, no final do século XIX e até meados do século seguinte facilitava a ligação entre Portugal e França. Uma ligação bastante retratada no já mencionado livro Cidade e as Serras de Eça. Dizia o marido da Mirita que ainda se lembrava da circulação dos comboios mas a sua mulher não. Com isto apercebemo-nos que alguém com cinquenta e poucos anos, na década de oitenta, não tinha idade para se aperceber destas mudanças do cenário ferroviário em Portugal que vivemos, em tempos, apreensivos. Estamos a ficar velhos.

https://maps.app.goo.gl/CBRvRRZsyMgzbkht8

No dia seguinte fizemos a abordagem ao museu das gravuras e zonas limítrofes. Uma pequena rota, bem assinalada, leva os pedestrantes diretamente entre a pousada e o museu, sem passar pela cidade. Chegada ao museu: um bloco de betão armado, não pintado, perfeitamente enquadrado na paisagem e na geologia, em escarpas xistosas no cimo de um monte junto á foz do rio Côa. Uma paisagem fenomenal de cortar a respiração é observável do restaurante envidraçado e de sua esplanada com cadeiras confortáveis expostas aos vales cavados do Douro e do Côa.

https://maps.app.goo.gl/CExHreFdubKEiDRa7 

Com o aproximar de um previsto temporal de sul, decidimos descer o longo passadiço, com cerca de 1 km e cerca de 900 degraus, descendente, em direção às águas calmas e serpenteantes do rio Douro. Bastante cansativo, não pelo desnível negativo, mas sim pela alternância de escadarias com zonas planas e, por vezes, com algumas subidas. No entanto sem chuva.

https://maps.app.goo.gl/pZtRCVxBD4NbCGD39

Vistas fulgurantes para o vale do Côa, lá no fundo, para zona da barragem interrompida por que as gravuras não sabiam nadar, e o Douro mais largo e senhor de si, por onde circulavam languidamente algumas embarcações com turistas. Já passou o tempo dos rabelos, de fundo chato, verdadeiros obreiros e transportadores do tão apreciado vinho. 
No final chega-se à desativada linha do Douro, no troço entre Pocinho e Barca d'Alva e á restaurada estação do Côa, ainda com carris e também à ponte férrea posicionada na foz do Côa, com chulipas que se encontravam definitivamente degradadas ou queimadas, e a partir da qual os carris pareciam abandonar a linha, desaparecidos ou completamente envolvidos por vegetação. 
Entretanto, conforme prometido, o dilúvio celeste começou. Sentado no cais da estação, sob proteção do alpendre, sem vivalma num raio de 4 - 5 km, sob um silêncio ensurdecedor, apagado lentamente pelo ruído da chuva cada vez mais forte que batia nos telhados, entrou-se em modo de introspecção. Momentos impossíveis no stress diário e na azáfama das zonas citadinas.

https://maps.app.goo.gl/wgwcaG8iYZCB4qcP8

E a chuva não parava. O regresso pelo mesmo caminho, que corresponderia à subida dos 900 degraus, era molha certa. A solução foi, mais uma vez, recorrer à dinâmica e disponível D. Ilda.
- Não se preocupe, alguém irá aí buscá-lo - respondeu ao apelo a taxista solícita.
E de facto, algum tempo depois e após ter percorrido o percurso várias vezes por incapacidade de contato telefónico por falta de rede, um seu colega apareceu na sinuosa, degradada e antiga estrada, preocupado e pronto a salvar o turista incauto. 
- 5 euros - determinou o modesto e humilde motorista, aquando da chegada ao museu, talvez a pensar que o valor era elevado. Na verdade foi um percurso de quase 6 km por estrada estreita onde não se cruzam dois carros em sentido contrário, cheia de buracos, de declive rigoroso.

A fase seguinte foi mais um torpedo no plano interralista, A frugal refeição ou, no máximo, o almoço em fast food, foi substituído por opíparo repasto no aconchegante restaurante do museu. Duas grandes paredes envidraçadas, voltadas a nascente e a sul, permitiam uma vista de quase 180° para os vales do Côa e do Douro, com o horizonte a tocar em Espanha. 
A escolha foi um ótimo e original bacalhau com amêndoas e castanhas, que soltava lascas deliciosas, salgadas qb, onde as amêndoas se entranhavam, em simbiose, com o peixe. Único. 

https://maps.app.goo.gl/nXSMMkdpLErJ1i8F8


Dia seguinte, regresso. Transporte para o comboio pela já familiar taxista. Primeira escala no Pinhão, vila do concelho de Alijó, perfeitamente integrada na região da demarcada do Douro, visitável em poucas dezenas de minutos e de onde se sobressai uma estação de comboio com 25 paineis de azulejos, bem restaurantes e que fazem as delícias dos turistas ferroviários e fluviais. 


Bons grelhados na churrasqueira Pinhão: https://maps.app.goo.gl/tahru6gk34wCsNZg8

Alternativamente, a petisqueira Cardanho dos Presuntos, coroada por programa de grande audiência na SIC, onde não se deve perder o chouriço assado com cebola marinada em vinho e as famosas e bem recheadas sandes de presunto.

https://maps.app.goo.gl/YyV9RqH2tP8hTqwx9?g_st=ac

De regresso a estação para continuar a viagem, o comboio apresentava 50 mn de atraso, sem painéis informáticos nem alguém para informar nem justificar o atraso. Lá apareceu uma voz nos altifalantes, somente em português, confundindo os vários estrangeiros presentes na plataforma, informando do atraso
Lá seguiu o comboio, ronceiro, rio abaixo, passando novamente pela Régua, afastando-se do Douro mais a jusante e entrando no baixo Minho e terras do Verde.

Chegada a Campanhã com cerca de 1h30 de atraso e claro, sem o aguardado Intercidades de correspondência, que entretanto já partira.

Boa oportunidade para ingerir calorias na habitual petisqueira Astro, mesmo em frente á estação, com uma esplanada no meio do passeio, onde saboreiam as deliciosas bifanas á Porto, em que o pequeno papo-seco está perfeitamente atulhado de deliciosas, suculentas e gordurosas tiras de carne de porco, acompanhadas por um caldo verde com a indissociável rodela de chouriço, e o fresco e borbulhante fino. 

https://maps.app.goo.gl/YyV9RqH2tP8hTqwx9?g_st=ac

Regresso a casa no IC seguinte, algumas horas depois do previsto, algo característico dos antigos Interrails onde a perda de correspondência era habitual e totalmente aceite com a calma e resignação da juventude.