domingo, 20 de setembro de 2026

Interrail doméstico... ou nem tanto.


Quando se fazia o Interrail na tenra idade de 20 anos, sabíamos que nos tínhamos de despir de comodidades e luxos. 40 anos depois decidimos retomar esses velhos tempos, agora aproveitando o passe verde da CP. Um teste à acomodação normal da idade começou numa terça feira de agosto, com meteorologia pouco convidativa. Mochila às costas, mas sem abastecimento de conservas, como era habitual naqueles tempos idos. A carteira ia um pouco mais recheada.

Entroncamento - Porto. A saída matinal num intercidades compostinho de passageiros, permitiu também uma chegada temprana à cidade invicta, descontando, naturalmente, o crónico atraso dos comboios da CP. Carruagens idênticas às que as composições francesas usavam nos anos 80 do século passado. 
Porto Campanha - Porto São Bento. Uma curta viagem de 5 mn com uma vista maravilhosa da margem norte do Douro, para as pontes, arribas, serra do Pilar e Gaia. Chegada a São Bento, a estação-monumento, ocupada mais por turistas que visitam os célebres azulejos figurativos historiados e policromáticos de inspiração arte nova e barroca, do que por passageiros. 

https://maps.app.goo.gl/kGj4Bp3h9hV5DfEo7

Visita rápida á cidade e à zona ribeirinha de Gaia, a passo apressado, característico dos passeios pelas Europa nos anos 80. O comboio não espera e é ainda necessário encher o estômago. A visita á tasca Sol e Sombra, perto do Coliseu, considera-se algo não exequível nos tempos do turismo jovem, só igualável a uma ida esporádica e justificada por acontecimento festivo a um McDonald's, depois de contar os francos, coroas ou dramas.
- Uma bifana, caldo verde e batata frita, por favor. Para beber, uma imperial.
- Não tenho imperial nem sei o que é - referiu o empregado bonacheirão, inicialmente sério e depois com ar trocista. 
- Certo. Acusamos o toque.Afinal somos mouros. Traga lá os finos.

https://maps.app.goo.gl/yoZ7y9LPgqoUXVPw9

Porto - Pocinho. Após regresso a Campanhã, num comboio interregional com destino à cidade minhota e fronteiriça de Valença, entrámos num longo comboio, com cerca de 6 carruagens diversificadas tanto em cor como em formato. Mas todas elas com janelas de guilhotina que permitem abertura e efetuar a ação mais agradável que a um interralista era permitido naquela altura, quando da passagem pelos vales glaciares alpinos, dos vinhedos e castelos renascentistas do Vale de Loire ou dos extensas e silenciosas pastagens das Higlands divididas por muros de pedra seca que confinam os rebanhos de ovelhas: viajar em pé, com a cabeça parcialmente de fora, ao vento e estarrecidos com os mutáveis cenários.
Apartir da estação de Pala, a linha do Douro acompanha o rio homónimo. Sempre pela margem norte. Aregos, a adorada estação da fictícia Tormes, onde Jacinto e Zé Fernandes desenjoavam dos hábitos e da gastronomia rotineiros de Paris. A Régua, histórico interposto comercial do vinho do Porto, de onde partiam os barcos rebelos, está rodeada de altas e longas encostas, riscadas por socalcos que sustentam antigas cepas. Aguardámos o habitual pregão das vendedeiras de rebuçados de açúcar e limão, primorosamente embrulhados em papel e que surgiam habitualmente no cais da estação. Nada. Aquelas mulheres, que de cesto de verga tapado com pano de linho branco esperavam os clientes, desapareceram e privando-nos de doces momentos.
Este troço de linha férrea é acompanhados pelas importantes mas obstrutoras barragens: Crestuma-Lever, Carrapatelo, 
 Régua, Valeira e Pocinho. A construção da barragem da Caldeira, nos anos 80 do século XX, foi responsável pela alteração da linha do Douro, promovendo uma nova travessia cerca de 1,5 km a montante da ponte treliçada de ferro originalmente construída no século XIX. As bases de sustentação em cada margem ainda dão visíveis.

Pocinho e Vila Nova de Foz Côa 
As passadas viagens de interrail, embora sustentadas no comboio, permitiam aos viajantes a paragem nalgumas cidades ou zonas que mereciam visita. Foi o que fizemos nesta zona douriense do distrito da Guarda.
Chegada a meio da tarde à estação do Pocinho. Vários passageiros, turistas, nem saíram do comboio. Regressavam ao ponto de início. 
Seguindo a filosofia do interralista, carente de divisas, procurámos um económico autocarro que permitisse ultrapassar a distância de cerca de 7 km, serra acima. Na verdade, com estas modernices da internet, já sabíamos da sua inexistência, ou melhor, da parca frequência de dois diários. Nada á vista. Á vista, sim, um sinal de parqueamento de táxis onde constava uma placa com o nome e os telemóveis de dois taxistas. Optando pela solução mais dispendiosa mas mais prática, fugindo á filosofia espartana da viagem, tentámos o primeiro número: o da Ilda.
- Boa tarde. Precisávamos de transporte para a pousada de juventude de Vila Nova de Foz Côa. Está perto?
- Sim, sim. Estou em Santo Amaro e rapidamente chego á estação. 
Encontrada no mapa a localidade de Santo Amaro, verificou-se que o tempo demorado a percorrer o trajeto até á estação não era permitido pelas leis da física. 
A simpática D. Ilda, uma fozcoense pequena e muito dinâmica, na casa dos sessenta, aparcou no seu lugar e, sorridente, abriu o porta bagagens do moderno Mercedes station wagon para acolher as mochilas. Entrámos na viatura com equipamento de nave espacial e voámos em direção ao destino. Durante a subida pela estrada nacional, as curvas eram cortadas pela esquerda, a velocidade era a da luz e apercebemo-nos que a opção de rejeitar o percurso pedestre foi o melhor.


A pousada de juventude, edifício relativamente moderno e implantado na cumeada de um vale por onde corre uma linha de água afluente do Douro, acolhe atualmente pessoas de todas as idades e possui quartos com casa de banho privativa, contrariamente às antigas pousadas, onde as camaratas eram rainhas únicas. Quartos com vista para o vale (e para a povoação de Santo Amaro, brilhante no outro lado do vale), agradável esplanada, anfiteatro ao ar livre, salas de lazer, de refeições e cozinha, as instalações desta hospedaria fazem inveja a muitos hotéis. 

https://maps.app.goo.gl/3WnqxA7FHmM2NJ567

Como verdadeiros interralista fomos adquirir alimentos para o jantar. Deparámo-nos com a frutaria Mirita, bem no centro da cidade (sim, Vila Nova de Fica Côa já é cidade). A Mirita e o seu marido receberam-nos sorridentes no seu minúsculo supermercado que de fruta tinha pouco. Reinadia, a Mirita fez tudo para nos contentar e apresentou todas as iguarias que posuia e que pudessem satisfazer o repasto próximo.
Conversa puxa conversa, veio á baila o encerramento da linha do Sabor (Pocinho - Três Igrejas / Miranda do Douro) e do Douro entre Pocinho e Barca D'Alva, linha que, no final do século XIX e até meados do século seguinte facilitava a ligação entre Portugal e França. Uma ligação bastante retratada no já mencionado livro Cidade e as Serras de Eça. Dizia o marido da Mirita que ainda se lembrava da circulação dos comboios mas a sua mulher não. Com isto apercebemo-nos que alguém com cinquenta e poucos anos, na década de oitenta, não tinha idade para se aperceber destas mudanças do cenário ferroviário em Portugal que vivemos, em tempos, apreensivos. Estamos a ficar velhos.

https://maps.app.goo.gl/CBRvRRZsyMgzbkht8

No dia seguinte fizemos a abordagem ao museu das gravuras e zonas limítrofes. Uma pequena rota, bem assinalada, leva os pedestrantes diretamente entre a pousada e o museu, sem passar pela cidade. Chegada ao museu: um bloco de betão armado, não pintado, perfeitamente enquadrado na paisagem e na geologia, em escarpas xistosas no cimo de um monte junto á foz do rio Côa. Uma paisagem fenomenal de cortar a respiração é observável do restaurante envidraçado e de sua esplanada com cadeiras confortáveis expostas aos vales cavados do Douro e do Côa.

https://maps.app.goo.gl/CExHreFdubKEiDRa7 

Com o aproximar de um previsto temporal de sul, decidimos descer o longo passadiço, com cerca de 1 km e cerca de 900 degraus, descendente, em direção às águas calmas e serpenteantes do rio Douro. Bastante cansativo, não pelo desnível negativo, mas sim pela alternância de escadarias com zonas planas e, por vezes, com algumas subidas. No entanto sem chuva.

https://maps.app.goo.gl/pZtRCVxBD4NbCGD39

Vistas fulgurantes para o vale do Côa, lá no fundo, para zona da barragem interrompida por que as gravuras não sabiam nadar, e o Douro mais largo e senhor de si, por onde circulavam languidamente algumas embarcações com turistas. Já passou o tempo dos rabelos, de fundo chato, verdadeiros obreiros e transportadores do tão apreciado vinho. 
No final chega-se à desativada linha do Douro, no troço entre Pocinho e Barca d'Alva e á restaurada estação do Côa, ainda com carris e também à ponte férrea posicionada na foz do Côa, com chulipas que se encontravam definitivamente degradadas ou queimadas, e a partir da qual os carris pareciam abandonar a linha, desaparecidos ou completamente envolvidos por vegetação. 
Entretanto, conforme prometido, o dilúvio celeste começou. Sentado no cais da estação, sob proteção do alpendre, sem vivalma num raio de 4 - 5 km, sob um silêncio ensurdecedor, apagado lentamente pelo ruído da chuva cada vez mais forte que batia nos telhados, entrou-se em modo de introspecção. Momentos impossíveis no stress diário e na azáfama das zonas citadinas.

https://maps.app.goo.gl/wgwcaG8iYZCB4qcP8

E a chuva não parava. O regresso pelo mesmo caminho, que corresponderia à subida dos 900 degraus, era molha certa. A solução foi, mais uma vez, recorrer à dinâmica e disponível D. Ilda.
- Não se preocupe, alguém irá aí buscá-lo - respondeu ao apelo a taxista solícita.
E de facto, algum tempo depois e após ter percorrido o percurso várias vezes por incapacidade de contato telefónico por falta de rede, um seu colega apareceu na sinuosa, degradada e antiga estrada, preocupado e pronto a salvar o turista incauto. 
- 5 euros - determinou o modesto e humilde motorista, aquando da chegada ao museu, talvez a pensar que o valor era elevado. Na verdade foi um percurso de quase 6 km por estrada estreita onde não se cruzam dois carros em sentido contrário, cheia de buracos, de declive rigoroso.

A fase seguinte foi mais um torpedo no plano interralista, A frugal refeição ou, no máximo, o almoço em fast food, foi substituído por opíparo repasto no aconchegante restaurante do museu. Duas grandes paredes envidraçadas, voltadas a nascente e a sul, permitiam uma vista de quase 180° para os vales do Côa e do Douro, com o horizonte a tocar em Espanha. 
A escolha foi um ótimo e original bacalhau com amêndoas e castanhas, que soltava lascas deliciosas, salgadas qb, onde as amêndoas se entranhavam, em simbiose, com o peixe. Único. 

https://maps.app.goo.gl/nXSMMkdpLErJ1i8F8


Dia seguinte, regresso. Transporte para o comboio pela já familiar taxista. Primeira escala no Pinhão, vila do concelho de Alijó, perfeitamente integrada na região da demarcada do Douro, visitável em poucas dezenas de minutos e de onde se sobressai uma estação de comboio com 25 paineis de azulejos, bem restaurantes e que fazem as delícias dos turistas ferroviários e fluviais. 


Bons grelhados na churrasqueira Pinhão: https://maps.app.goo.gl/tahru6gk34wCsNZg8

Alternativamente, a petisqueira Cardanho dos Presuntos, coroada por programa de grande audiência na SIC, onde não se deve perder o chouriço assado com cebola marinada em vinho e as famosas e bem recheadas sandes de presunto.

https://maps.app.goo.gl/YyV9RqH2tP8hTqwx9?g_st=ac

De regresso a estação para continuar a viagem, o comboio apresentava 50 mn de atraso, sem painéis informáticos nem alguém para informar nem justificar o atraso. Lá apareceu uma voz nos altifalantes, somente em português, confundindo os vários estrangeiros presentes na plataforma, informando do atraso
Lá seguiu o comboio, ronceiro, rio abaixo, passando novamente pela Régua, afastando-se do Douro mais a jusante e entrando no baixo Minho e terras do Verde.

Chegada a Campanhã com cerca de 1h30 de atraso e claro, sem o aguardado Intercidades de correspondência, que entretanto já partira.

Boa oportunidade para ingerir calorias na habitual petisqueira Astro, mesmo em frente á estação, com uma esplanada no meio do passeio, onde saboreiam as deliciosas bifanas á Porto, em que o pequeno papo-seco está perfeitamente atulhado de deliciosas, suculentas e gordurosas tiras de carne de porco, acompanhadas por um caldo verde com a indissociável rodela de chouriço, e o fresco e borbulhante fino. 

https://maps.app.goo.gl/YyV9RqH2tP8hTqwx9?g_st=ac

Regresso a casa no IC seguinte, algumas horas depois do previsto, algo característico dos antigos Interrails onde a perda de correspondência era habitual e totalmente aceite com a calma e resignação da juventude.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

E a praia mais acessível do Entroncamento é...


Tradicionalmente os habitantes do Entroncamento e concelhos limitrofes, quando pretendem refrescar-se em águas marinhas, deslocam-se para o eixo da costa entre Peniche e São Pedro de Moel. Uns rápidos e cómodos 70 km, de carro, são suficientes para por a banhos estes ribatejanos.

E se se pretendesse aceder a uma praia sem utilizar viatura, somente transportes públicos, sem grandes transtornos de mudanças? A costa mencionada não é servida por bons transportes. Até o comboio, na linha do Oeste, se encontra parcialmente suspenso. As muito desejadas praias da Costa da Caparica exigem 3 tipos diferentes de transporte e mudança pelo menos 3 vezes.

Por que nem sempre o percurso mais conveniente corresponde á distância mais curta, concentrei-me num mapa de Portugal onde as linhas férreas se encontravam bem evidentes.

Bingo. O dedo pressionou o mapa na costa atlântica, um pouco mais a norte, não muito longe do Porto. Espinho! Na verdade, uma extensa praia, a poucas dezenas de metros da estação de comboio que acolhe composições rápidas e diretas provenientes do Entroncamento, bons restaurantes e um passadiço que acompanha a costa e que permite relaxantes passeios, foi a solução para a equação. Ainda por cima com a vantagem do passe verde ferroviário.
A problemática habitual da temperatura da água do mar não se coloca. A temperatura do ar, com uns gélidos 30° C 😁,que contrastam com os 42° C do interior, diminuem fortemente o choque térmico. E ainda por cima, neste ano de 2026, as condições meteorológicas ditaram um aumento da temperatura da água na costa atlântica em detrimento da costa algarvia. (nesse dia a água do mar nas praias de Espinho atingiram os 20°C).
Depois de algumas horas a torrar ao sol, em período adequado e menos perigoso, pode-se sempre continuar o passeio pelo passadiço, almoçar na Aguda, no restaurante Pai Herói (reservem com antecedência e peçam lulas), continuar em direção a norte e visitar a capela do Sr. da Pedra em Miramar, Arcozelo, (aproveitem as agradáveis esplanadas sobre a praia para beber algo agradável) e, para os mais corajosos, prosseguir até ao Douro. Os mais frágeis ou com menos tempo podem sempre dirigir-se ao apeadeiro de Miramar e apanhar um comboio para o Porto ou para Espinho para, aí, esperarem por um intercidades de volta ao Entroncamento. 
Mais uma volta podoferroviária, nesta caso com praia, passadiços, gastronomia, visitas culturais e, como sempre, viagem de comboio. 

sábado, 13 de junho de 2026

Espanha aqui tão perto... de comboio

Mais uma viagem com o passe verde ferroviário. Entroncamento até Badajoz e volta.


Na velha estação, a automotora a diesel Allan espera os parcos passageiros com o orgulho dos seus 70 anos. Por ter sofrido uma operação de botox há 25 anos, com ar condicionado e poltronas mais cómodas, lá cumpre dignamente a sua missão ao longo das cerca de 3 horas de viagem e 180 km até à cidade da extremadura espanhola, ronceira e tremeliques. A linha também não ajuda.


Afinal, o comboio sai compostinho: a chegada de um intercidades do norte alimentou a Allan com passageiros suficientes para encher metade da sua capacidade.


Saída a horas, após acionada a buzina estridente. 9h06. O ar condicionado começou a funcionar. Cabeça fresca que fez despertar para os passageiros vizinhos. Em viagens de comboio é interessante, como um jogo, adivinhar os destinos dos outros passageiros. Alguns jovens com perfil de interrailistas (não encontro outro nome para os definir), com mochilas carregadas e roupa desportiva e leve, que resistiram à viagem de avião e de Flixbus para transpor as fronteiras dos países ibéricos, aproximando-se da Europa. Outros passageiros, pelo traje e pequena mochila individual, têm objetivos de viagem semelhantes: passeio ferroviário e visita à cidade capital da província espanhola da extremadura, eventualmente a Elvas. Também estudantes que regressam a casa de fim de semana e alguns passageiros habituais e frequentes.


Depois de deixar o vale do Tejo em Rossio ao Sul do Tejo, a Vila Nova de Gaia de Abrantes, o comboio mergulha em paisagens alentejanas caracterizadas por orografia suave e espécies florestais autóctones de folha perene. As paisagens florestais alteram-se, com o domínio das árvores de fuste vermelho e fornecedoras da matéria-prima bem conhecida, acompanhadas por extensos e altos povoamentos de eucalipto, alinhados e bem densos.


Uma dúzia de passageiros ruidosos entram na estação da Bemposta/São Facundo e quase enchem o comboio, constituído somente pela automotora e sem carruagens.


Os auscultadores são bem-vindos, principalmente se forem com cancelamento de ruído exterior. O concerto para piano n.º 21 de Mozart articula-se, suave e introspectivo, com o cenário rural, mas é ocasionalmente interrompido pela falta de sinal, habitual no Alentejo profundo.


Bemposta, Ponte de Sor, Torre das Vargens. Está última, uma estação imponente para o local, entroncamento de dois ramais, o que seguimos, em direção a Portalegre e Elvas, e um outro, desativado mas com uma importância histórica por ser onde passava o antigo e conceituado Lusitânia Express que efetuava a ligação noturna entre Lisboa e Madrid. Tudo isso acabou: Lusitânia Expresso (via Marvão-Beirã e, posteriormente, via Salamanca), Sud Express (nos primórdios via linha do Douro, como nos contava Eça e o seu amigo Ega, e posteriormente por Vilar Formoso). Atualmente, as únicas ligações a Espanha (e, consequentemente,  à Europa) são esta, Entroncamento-Badajoz, e a ligação Porto-Vigo. Estamos piores que há 100 anos atrás, apesar das promessas não respeitadas dos nossos governantes.


Chança, Crato, Portalegre. Estações com janelas e portas entaipadas com tijolo e cimento. Estações mortas para o exterior, mantendo-se operacionais somente as linhas.


Saída de uma dúzia de passageiros em Portalegre e 4 no Crato, dos quais dois dos identificados inicialmente como interrailistas em direção à Europa. (serão clientes do festival do Crato?) Erro de percepção, tão comum na nossa sociedade selvagem e individualista em que percecionamos os males e defeitos dos outros somente pelas características visiveis.


Neste comboio curto, parecido com um autocarro, o pica passa várias vezes, sorridente, pelo corredor, transmitindo um clima de boa disposição, ampliado pelo grupo da Bemposta, agora atracado a umas cervejas.


A paisagem trocou o sobreiro pela azinheira, com árvores centenárias dispersas em extensos campos com pastagens ou em pousio para futuras culturas cerealíferas: os característicos montados. Terrenos mais secos e calcários acolhem esta espécie protegida em Portugal.


Mozart foi também substituído pelos A-ha, fazendo associar a baixa temperatura da cabine, da responsabilidade do potente aparelho de  ar condicionado, ao país originário do grupo, e contrastando com a temperatura exterior tórrida. 


Assumar, Arronches, Santa Eulália, Elvas. A automotora continua, gingona, a aproximar-se do destino castelhano.


Em Santa Eulália saiem os 3 jovens percecionados como estudantes. O comboio retoma novamente metade da sua capacidade. Na aproximação a Elvas, o último reduto português antes da passagem da fronteira, a automotora abranda como se o trânsito na linha o justificasse. Na verdade, este ramal comporta somente  quatro comboios por dia, dois no sentido ascendente e dois no descendente. Estação com alguma dimensão, com movimento de contentores e de composições técnicas de construção e reabilitação de linhas. A estação encontra-se em ampliação. Bom sinal. 


Após Elvas, resta um número significativo de passageiros,  cerca de 1/4 da capacidade. Linha eletrificada desde este local, pela Espanha dentro, embora o veículo em que nos deslocamos o despreze.


Passagem pela fronteira sem nos apercebermos quando e onde. Lá vai o tempo em que os passageiros portugueses tinham de aguardar muito tempo nas estações fronteiriças, de apresentar passaporte, pagar 1000 escudos de taxa e, nalguns casos, sofrer um interrogatório sobre o motivo da saída.


É claramente perceptível a economia mais ativa do lado espanhol, com extensas zonas industriais, plantações intermináveis de olival,  estaleiros para construção e alargamento da rede viária, rodoviária e ferroviária, e existência de armazéns, como por exemplo da Amazon e do Leroy Merlin.


Badajoz é uma cidade com história, cheia de vestígios facilmente observáveis. Desde a cidadela, constituída por remendos que comprovam as diferentes necessidades de defesa militar entre o século IX e as invasões francesas do século XIX, até evidências físicas recentemente expostas da utilização de um veículo de transporte público puxado a cavalo, tipo chora lisboeta (el tranvia de tracción animal), entre o final do século XIX e o início do século XX.



O tempo que medeia a chegada do comboio proveniente do Entroncamento e a sua saída no final do dia, cerca de 7 horas e meia, dá perfeitamente para vaguear a pé pela cidade, bebendo da sua história, auscultando e observando os habitantes, almoçando nos seus restaurantes e degustando as suas iguarias. Nos períodos de maior calor, para efetuar este percurso pode ser necessária alguma coragem e bastante água. Um supermercado, um museu são locais onde o turista pode refugiar-se e repor a sua temperatura corporal a valores admissíveis. Também uma esplanada à sombra de árvores ou de arcadas, acompanhada de uma boa e gelada "caña", contribui para esse desiderato.


Regresso pelas 19h41. Partida a horas. Uma Allan ainda mais ronceira, gingona e tremeliques. Uma autêntica massagem dos músculos das costas e barriga  das pernas. O material circulante nestas linhas secundárias deixa mesmo a desejar. Em contrapartida, a compra de bilhetes e de passes está modernizada, praticamente digitalizada e a APP da CP permite mesmo saber online o tempo de atraso dos comboios. A app Comboios georreferencia em tempo real todos os comboios que em determinado momento (e também em histórico) estão a circular na rede ferroviária portuguesa. Mas na prática, o que adianta saber que o comboio que nos transporta está atrasado uma hora se tal facto não nos faz chegar mais rápido ao destino? Não foi o caso desta viagem em que o maquinista respeitou rigorosamente os horários.


Por ser dia 10 de junho de 2026, Dia de Portugal, foi um bom dia para visitar Espanha. 😁



Informação prática


Transportes

- Passe ferroviário verde por 20 euros mensais e que permite viajar em todos os comboios da CP exceto Alfa Pendular e urbanos.

Duas saídas por dia do Entroncamento para Badajoz e duas de regresso.

- Cidade pequena que permite ser calcorreada facilmente a pé. Caso necessite de transporte urbano há uma boa rede de autocarros elétricos com possibilidade de comprar o bilhete ao motorista (alguns aceitam cartão de débito. Levar dinheiro trocado, ou notas pequenas, pelo sim pelo não).


Restauração

- Meson El Chozo Extremeño, com um interessante e apaladado Solomillo de Ajo Tostado, embora incompatível com dia muito quente (pequenos medalhões de carne de porco muito tenra com natas, batatas e alho tostado por cima). Callos, a nossa Sobreda, é também de provar.


- Beber um copo nas esplanadas da Plaza Alta ou nos bares junto ao rio, junto ao início sul da Puente de Palmas.


Atrações

- Cidadela (Alcáçova, Torre da Força, Porta do Capitel, Museu de Arqueologia, percorrer a pé toda a muralha)

- Ponte de Palmas

- Porta de Palmas

- Praça Alta, com as casas coloridas e as esplanadas com vista para a cidadela e a Torre de Espanta Cães.

-Catedral de São João Batista e a Praça de Espanha

- Jardim de São Francisco

- Parque Castelar

- Baluarte de São Vicente

- Vias de tranvia


Vários

-Mercadona perto da estação para abastecimento alimentar e bebidas para a viagem de regresso. 😁



Boa viagem. É sempre um prazer viajar de comboio. 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A sociedade que despreza o imigrante

À entrada de Chinatown — aquele enclave vibrante onde Nova Iorque se transmuta em Ásia — deparámo-nos com uma multidão de vendedores ambulantes. Na sua maioria negros, possivelmente imigrantes em busca de sonhos intangíveis, estendiam lençóis brancos pelo chão, improvisando montras para mercadorias contrafeitas, sobretudo malas e carteiras. Com uma insistência quase desesperada, tentavam seduzir os turistas com promessas de um status efémero, passaporte de entrada na sociedade capitalista e selvagem que o governo de Trump personifica.


​Subitamente, como suricatas em alerta, os vendedores ergueram as cabeças. Num movimento coreografado pelo medo, iniciaram a debandada, arrastando os fardos de mercadoria  improvisados enquanto a polícia se aproximava. Na aflição da fuga, algumas malas caíram pelo caminho. Foi então que um casal de jovens, bem vestidos e de aparência abastada, recolheu uma das peças do chão e, sem qualquer pudor, tomou-a como sua, escondendo-a dentro do casaco.

.
​O gesto serviu de metáfora perfeita: a personificação de uma sociedade que despreza o imigrante, mas que, de forma agressiva e oportunista, não hesita em usufruir do fruto do seu trabalho e sacrifício.

revisto pelo Gemini

Wrong Way

Nos EUA a sinalização rodoviária é s universal. Com algumas pequenas diferenças. Nalguns casos, as entidades responsáveis pela colocação dos sinais de trânsito preferem colocar um painel mencionando NÃO PASSAR do que simplismente implantar um sinal de sentido proibido. O sinal de sentido único é também frequentemente substituído pelo texto WRONG WAY. Nas zonas com maior população e sem semáforos, existem cruzamentos em que todas as estradas têm um sinal de stop. Perguntámos a um autóctone do porquê desse facto caricato, se as regras de prioridade também se aplicam no país. Parece que desta forma se identifica claramente o condutor que deve avançar primeiro, que é aquele que também parou primeiro no cruzamento. 🤠


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tecnologia nas nuvens


A primeira vez que tive oportunidade de transpor distância via aérea, foi no final dos anos 80 do século XX. As aeronaves, no seu interior e na perspetiva do entretenimento do passageiro, eram frugais. Nada de écrans nem informação das temperaturas exteriores, rotas em mapa-mundo, tempo e hora à chegada. As estimativas surgiam da cabeça de cada um. Já nos anos 90, principalmente nos voos de longo curto, surgiram os ecrãs públicos, otimizados para algumas, poucas, filas de viajantes. Uma imagem rudimentar da região do globo por onde se desenvolveria a viagem, com parcas informações meteorológicas e de distâncias.



Em 2009 surgiam ecrãs minusculos da cabeceira da poltrona da frente, individuas por passageiros. Recordo-me mais ou menos nessa altura, num voo da TAAG Porto Luanda,  o gigante mas elegante Boeing 777, possuía simples ecrãs pouco maiores que os dos atuais smartphones, com os quais se ocupava o tempo das longas viagens, enclausurados  no tubo voador.


Agora, abril de 2026, estamos a voar em direção a Boston, a atravessar o extenso Atlântico. Um ecrã generoso, a dois palmos do nariz, disponibiliza ao paciente viajante uma série de entretenimentos inimagináveis há 20 anos atrás. Centenas de  filmes, programas de TV, videos para relaxar, jogos de arcada, os últimos  gritos musicais, a par de obras musicais elaboradas em tempos em que os únicos voadores eram os pássaros. Os auscultadores fornecidos pelas comissárias de bordo são higienicamente substituídos pelos auscultadores bluetooth que diligentemente trazemos de casa. Os passageiros que largaram mais uns cobres para fazer a viagem de forma mais confortável que os restantes, têm á sua disposição no ecrã o menu das refeições e a carta de vinhos. Os pelintras das filas da retaguarda, ao tentarem aceder a este item, são delicadamente informados "tente mais tarde", uma maneira de dizer "para a próxima não sejam tão agarrados".  Acresce, hélas, Internet à disposição, cuja qualidade e rapidez segrega uma vez mais os passageiros: os que querem pagar mais uns paus e os forretas. Por alguns cobres podemos navegar via satélite como se estivéssemos em casa, não como com fIbra ótica, mas como se estivéssemos ligados através  de um ADSL ronceiro. Mesmo assim, a TAP democratizou as mensagens de texto, abertas a todos e permitindo meter inveja aos amigos e familiares quando a mensagem do WhatsApp surge do outro lado informando que estamos a viajar a velocidade de cruzeiro, a 850 km/h e a 12 km de altitude. 


Para fidelizar os clientes, a companhia aérea permite criar um perfil, onde se registam todos os últimos tons favoritos e que, em próximas viagens, podem ser facilmente acessíveis.


Imaginem como será  daqui a 20 anos, quando os nossos netos usufruírem  do serviço dos robotizados comissários de bordo e de  televisão imersiva, difundida do planeta Júpiter.



Viagem Boston - Lisboa, 2 de abril de 2026, TAP, Airbus 321LR